Em que circunstância um guarda municipal, uma funcionária de um banco, um trabalhador da Companhia de Urbanização de Curitiba S.A. (Urbs) e uma profissional da comunicação de uma empresa de telefonia podem realizar a mesma tarefa? De que maneira pessoas com ocupações tão diferentes podem encontrar um ponto de convergência, reunindo esforços para um só objetivo? A resposta é fácil: cantando. Quando cantam, a voz grave de João Batista dos Santos (o guarda) completa a sonoridade aguda de Katerine Flores (do banco), para formarem melodias e acordes de uma mesma música. O timbre de Silas da Silva (da Urbs) casa bem com a voz da soprano Sônia de Oliveira (a comunicadora), independente das distâncias entre as profissões de cada um.
  ‘‘Quando mais diversidade melhor’’, garante a regente Selma Camargo, que dirige o coral da Fesp, onde encontram-se semanalmente esses profissionais. Segundo ela, além da integração, a prática traz outras vantagens: ‘‘Através das técnicas de respiração as pessoas acabam falando melhor, vencem a timidez e se socializam’’, explica. Na maioria dos casos essa atividade também funciona como uma válvula de escape para rotinas profissionais mais estressantes.
  Para Katerine, o coral é como uma terapia. ‘‘O sábado (dia dos ensaios) é sagrado para participar do grupo’’, diz. João Batista concorda com a colega. ‘‘Às vezes você tá conversando com alguém, daí tem que algemar, atirar. O coral pra mim é um momento para desestressar’’, confidencia. Sônia aproveita o momento dos ensaios para ‘‘reenergizar-se’’. Para ela esses também são momentos de auto-descoberta. ‘‘Aprendi a controlar algumas emoções e me conhecer um pouco mais’’, afirma.
  É difícil quantificar quantos corais existem em Curitiba. Além de iniciativas ligadas a instituições sociais (como associações de moradores, de mães e outras do tipo) e culturais (conservatório, centros culturais, escolas), quase todas as grandes empresas possuem algum tipo de grupo vocal. ‘‘Na grande maioria dos casos elas (as empresas) pensam na qualidade de vida dos funcionários’’, afirma Selma, que já regeu corais em várias instituições. ‘‘Outras estão preocupadas com o marketing’’, completa.
  Seja qual for o motivo que leva a empresa a investir nessa atividade, os resultados são sempre gratificantes para aqueles que participam. ‘‘Pessoas de vários departamentos, que só se viam no elevador, acabam se encontrando nos ensaios’’, conta Selma. ‘‘Às vezes acontece do motorista cantar melhor que o gerente e ficar corrigindo’’, diverte-se. Nesses momentos, o negócio é esquecer a hierarquia e tentar dar o máximo de si.
  Não é preciso ter experiência prévia para participar de um coral amador, como o das empresas. Basta gostar de cantar e levar a sério a proposta. ‘‘Toda pessoa tem potencial (pra cantar), basta se comprometer’’, afirma o policial João Batista. Selma adverte, no entanto, que ‘‘coral não é terapia de grupo’’. Há um compromisso com a qualidade das músicas e com o espetáculo que se pretende montar.
  Para manter o interesse dos participantes, é preciso que o grupo tenha uma dinâmica própria. ‘‘Tem que fazer coisas modernas, não dá pro cara que gosta de rock and roll ficar cantando Carinhoso’’, explica a regente.

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