Cansaço, limpeza e descoberta
Já me sinto cansado, não de tédio, mas como se tivesse feito exercício físico, feito uma corrida. Os outros alunos estão corados e sem os agasalhos do início do curso. O próximo passo é aprender as fases da respiração e de que forma o prender e soltar do ar pode influenciar no cotidiano. Mestre Sérgio diz que quando o tempo de inspiração é maior que o de expiração, o resultado é estimulante. Do contrário, o resultado é sedante. ''O controle dessa prática deve ser colocada em prática conforme a necessidade do dia'', ensina.
Enquanto memorizo isso, me debato para conseguir executar a respiração no tempo certo. Percebo como é difícil controlar o corpo, a mente e outras coisas que parecem depender apenas do nosso querer. Já não sei o que é mente e o que é corpo; desconheço sobre o que tenho domínio e o que não tenho. Na técnica chamada de Bhástriká - hiper-oxigenação do pulmão por meio da respiração curta e rápida - me debato em silêncio para conseguir realizar o exercício. Não consigo combinar a inspiração e expiração ligeira com o movimento do diafragma. É como se o ar não chegasse, como se pulasse meu pulmão, indo das narinas direto para algum lugar no diafragma. Meu desconhecimento de fisiologia humana não me permite afirmar se isso é possível, mas a sensação foi essa: em poesia tudo é possível.
De tanto respirar, sinto que meu pulmão começa a queimar. A queimação sobe para a garganta, que parece agora em constante nó. Engulo seco. O ar pára na minha goela e o pulmão parece que vai explodir. Sou vencido por uma sensação de sufocamento. Pela descrição, parece algo claustrofóbico; pelo contrário, a sensação é de limpeza e descoberta. E um pouco de leveza.
A terceira etapa do curso combina respiração e meditação. Para mim, até então sem contato algum com o yôga, é o momento mais difícil. A chamada mentalização, em que mestre Sérgio pede para que os discípulos imaginem a energia irradiando do corpo, parece-me inconcebível, devido ao meu poder de concentração baixo. Não consigo imaginar, como pede que mentalize o mestre, feixes de luz em pontos de meu corpo, subindo pela minha coluna e chegando ao alto de minha cabeça. Não consigo conciliar essa idéia com o fato de que tenho de respirar direito.
No ápice de todo o curso, meu corpo já não me responde. A concentração foge de minha mente como um gás escapa por uma fresta. De todo modo, tento manter a posição ereta de minha coluna e respirar no ritmo certo. Mais uma vez, a concetração necessária para isso me foge, vai escapando junto com o ar que expiro. Abro os olhos e observo os companheiros de curso - já não me são mais estranhos. Olho-os. Estão sentados de olhos fechados. São, visivelmente, mais evoluídos que eu. Em suas faces tranquilas, quase sem expressão, há a representação de tudo o que não consegui. De certa forma, contra minha vontade, invejo-os.
Novamente, ao observar seus rostos, recordo-me do livro de Hesse, a quem recorro novamente: ''... percebeu que esse sorriso da máscara, o sorriso da unidade acima do fluxo das aparências, o sorriso da simultaneidade muito além do sem-número de nascimentos e mortes, o sorriso de Sidarta, era idêntico àquele sorriso calmo, delicado, indevassável, talvez bondoso talvez irônico, de Gotama, o Buda, tal como ele próprio o observara centenas de vezes com profundo respeito. Era assim - Govinda o sabia - que sorriam os seres perfeitos''.
Aos poucos vão despertando, quando o curso acaba. Meus companheiros têm semblantes plácidos. São calmos e felizes. Eu não. Eu terminei o curso com a sensação de falta de ar, mesmo que o ar não me faltasse. Tive a certeza também da minha ignorância em relação a meu próprio corpo: me conheço muito menos do que pensava. Tenho certeza de que essa consciência é boa. (T.A.)





