Candidatos paranaenses desrespeitaram a legislação eleitoral e transportaram gratuitamente eleitores brasiguaios para votar em Foz do Iguaçu. Brasiguaios são os brasileiros que emigraram para o Paraguai. Segundo o governo paraguaio, cerca de 300 mil brasileiros vivem no país e se dedicam sobretudo à agricultura.
Ônibus alugados de empresas por candidatos, cruzaram ontem pela manhã a Ponte da Amizade, sobre o Rio Paraná, que liga Ciudad del Este (Paraguai) a Foz do Iguaçu. A lei eleitoral brasileira proíbe qualquer benefício oferecido por candidatos ao eleitor, entre eles o transporte.
Desde o início da manhã até às 11 horas de ontem, o grupo de nove policiais federais que estava de plantão no posto do órgão na Ponte interceptou dez veículos - cinco ônibus e cinco vans - transportando cerca de 270 eleitores brasiguaios. Os passageiros foram obrigados a descer e seguir a pé. Os motoristas tiveram conduzir os veículos de volta, e ninguém foi detido.
Entre as 10h30 e as 12 horas, a Folha acompanhou a fiscalização da Polícia Federal. Nesse período, um ônibus com mais de 70 pessoas - boa parte delas em pé - foi barrado. Havia muitas mulheres e crianças. Todos os passageiros tiveram que descer e seguir a pé. Integrantes desse grupo ouvidos pela Folha disseram que o transporte foi pago pelo deputado estadual Sérgio Spada (PSDB), candidato à reeleição.
Muitos passageiros estavam revoltados. ‘‘A gente se esforça para vir votar e acontece isso (ficar a pé)’’, reclamou Ademar Camelo, 45 anos, dono de uma churrascaria e de 70 alqueires em Naranjal, a 150 quilômetros da fronteira. ‘‘Larguei o plantio de soja para vir’’, disse o brasiguaio, que emigrou há 20 anos.
Com um adesivo de Spada sobre o bolso da camisa, Camelo confirmou que foi o candidato quem pagou o transporte. Segundo Camelo, só sua família renderia ‘‘21 votos no Spada’’. O ônibus no qual viajou à fronteira com parte da família saiu de Naranjal às 6 horas de ontem.
No mesmo ônibus estava Jurandir Pereira, de 35 anos, comerciante em Santa Fé (a 65 quilômetros da fronteira). ‘‘Ouvi dizer que foi o Spada quem pagou’’, afirmou Pereira, paranaense de Mariluz (35 quilômetros a sudeste de Umuarama), que mora no Paraguai há 12 anos.
No período em que a Folha permaneceu na Ponte da Amizade, Spada estava no local e acompanhou o incidente com o ônibus que transportava os brasiguaios. Mesmo assim, ele negou que tivesse pago o transporte dos brasiguaios. ‘‘Eles estão vindo por conta própria. Admito que tenho um bom apoio no Paraguai, mas não estou fazendo nada irregular’’, disse.
Spada acusou a PF de estar limitando o ‘‘direito de ir e vir’’ dos brasiguaios na Ponte da Amizade. Ele chegou a conversar com o chefe da operação, identificado como Arcênio. Depois dessa conversa, Arcênio ordenou a seus subordinados que só deveriam ser parados ônibus com ‘‘propaganda extensiva’’.
Ontem à tarde, a Folha tentou ouvir o juiz eleitoral Estevan de Camargo Filho, responsável pela fiscalização de crimes eleitorais envolvendo brasiguaios. O juiz estava acompanhando a apuração dos votos, no Centro de Convenções de Foz do Iguaçu, e não foi localizado.Ney de SouzaNão podePolicial federal vai ao encontro de ônibus interceptado na fronteira
Valmir Denardin

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