Canções do Lápis
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terça-feira, 18 de março de 2008
Fábio Galão<br>Equipe da Folha 
Palminor Rodrigues Ferreira, o Lápis, é pouco conhecido nacionalmente. Até mesmo em Curitiba, cidade onde ele nasceu e viveu, há muita gente que nunca ouviu uma canção dele. Entretanto, o cantor e compositor é um dos nomes mais respeitados da música paranaense. Em fevereiro, completaram-se 30 anos da morte de Lápis. A data redonda e o trabalho de resgate do repertório de Palminor, realizado por músicos locais já há alguns anos, oferecem a oportunidade do grande público entrar em contato com a obra do artista, que morreu com apenas 35 anos de idade.
Ele nasceu com insuficiência cardíaca. Fez duas operações no coração. Morreu logo após a segunda cirurgia, lembra Cremildes Ferreira Bahr, irmã de Lápis. Caçula de uma família numerosa (ele era o mais novo entre 20 filhos, conta Cremildes), Palminor se envolveu com a música muito cedo.
A música fazia parte da nossa educação. Papai tocava violão e mamãe cantava. Com quatro, cinco anos a gente já batucava e meu pai dizia quem tinha ritmo. Quem não tinha, precisava aprender. O Lalo, mais velho entre os filhos homens, com o primeiro ordenado, aos 14 anos, já comprou um cavaquinho. Ele aprendeu vários instrumentos e o Lápis se interessou, afirma Cremildes, que se recorda da estréia profissional de Palminor.
Um pandeirista saiu do conjunto da Rádio Marumbi. O Lalo era diretor do grupo e levou o Lápis. Com 11 anos de idade, o Lápis sozinho, ao pandeiro, cantava samba de breque, diz Cremildes. Ao longo dos anos, Lápis foi formando conjuntos. Apesar de ser mais conhecido hoje por seus sambas, boleros e fandangos, Palminor integrou até banda de rock. Ele não se prendia a estilo, fazia de tudo um pouco, explica a irmã.
O músico Rubem Rolim, que trabalhou com Lápis, diz que a rotina de tocar na noite curitibana moldou o ecletismo da obra de Palminor. Quem trabalha na noite tem que saber tudo e ele tocava um pouco de tudo. Era muito eclético, dependendo do momento, podia fazer coisas distintas, aponta Rolim, que conheceu Lápis no final da década de 1950.
Nosso emprego era tocar na noite. Na época em que conheci o Lápis, fui contratado pelo Clube Curitibano, que ainda funcionava na (Rua) Barão do Rio Branco. Eu dava aulas de violão lá e
levei o Lápis. Quando não tinha aluno, nós ficávamos conversando e compondo, diz Rolim.
Cremildes conta que o apelido surgiu quando Lápis trabalhou nos Correios. Lá todo mundo tinha apelido. Ele ficou sendo o Lápis porque era fino e preto, lembra Cremildes, rindo.
Nos anos 1960, Lápis formou o quarteto Bitten IV. O publicitário Paulo Vítola, que escreveu 15 músicas com Palminor, foi indiretamente responsável pela ida do grupo ao Rio de Janeiro. Eu trabalhava em TV, no Canal 4, e fui convidado para organizar os shows de uma feira no Parque
Castelo Branco. Chamamos artistas de fora e locais, entre eles o Bitten IV. O grupo conheceu o (empresário) Aderbal Guimarães, que os levou para o Rio, relata Vítola.
No eixo Rio-São Paulo, Lápis teve chances de alcançar repercussão nacional. Vítola afirma que três canções que ele e Palminor escreveram em parceria chegaram a festivais de grandes emissoras de televisão.
Ele participou com Aventura de um festival da TV Excelsior, chamado O Brasil Canta o Rio, e a música foi até a final. Naquela ocasião, ele se apresentou com músicos de Curitiba. No Festival
Internacional da Canção da Rede
Globo, o Lápis interpretou Roteiro com a orquestra da emissora, e o arranjo era do Waltel Branco. No Festival Nacional de Músicas de Carnaval da TV Tupi, ele apresentou Dia de Arlequim com o Bitten IV, explica Vítola.
Após a separação do Bitten IV, Lápis fez parte do conjunto de Eliana Pittman, com quem fez shows no exterior. No início da década de 1970, voltou a Curitiba. Ele queria fazer alguma coisa aqui. Ele me apresentava músicas novas, eu achava bonito, mas dizia a ele que ninguém fazia músicas sobre o Paraná. Aí ele fez Meu Paraná, eu dei umas idéias e a letra ficou como é
conhecida hoje. Ele correu atrás da Secretaria de Educação, queria que a música fosse levada às escolas, lembra Cremildes.
Na volta à capital paranaense, Lápis apresentou um de seus projetos mais elogiados e conhecidos, o espetáculo Funeral para um Rei Negro. Acho que foi a grande apresentação dele. Era um show musical que contava um pouco da história dele, e havia uma participação muito importante da (cantora) Ivanira. Tinha uma mistura de teatro e música, mas a parte musical prevalecia, conta Paulo Vítola.


