São 7h30 de uma manhã fria em Quatro Barras. É feriado do Dia do Trabalho e muitas pessoas decidem dormir até mais tarde, descansar. Mas para o auxiliar de serviços gerais Valdevino Borges Machado, o dia é de agradecimento e sacrifício: subir ao cume do Morro Samambaia, onde será realizada a Missa da Paz, que tradicionalmente marca as comemorações de 1º de Maio na região. Para ele, são 30 minutos de bicicleta até o pé do morro. Depois, mais cerca de uma hora caminhando por uma trilha íngreme, de mais de 2 km, cheia de pedras escorregadias e fendas causadas pela erosão. ''Vale o sacrifício, porque lá em cima você se sente mais perto de Deus'', explica Machado.
Teve gente que chegou ainda mais cedo. A estudante Sara Angelina Vieira andou a pé durante três horas. Chegou de madrugada, às 4h30, e acampou ao pé do morro, com uma vizinha. ''Valeu a pena, nos divertimos. Agora é esperar o momento de subir para a missa'', conta, antes de encarar a segunda parte da aventura.
Para os participantes, a trilha foi o único meio para chegar até o local da celebração, a 1.200 metros de altitude. Por ela passaram adultos, idosos, crianças. Passou também a secretária Maria Soares, que encara o desafio pela quarta vez. ''Consegui um emprego há três anos e tenho certeza que foi uma bênção conseguida nesta missa. Aí prometi que viria todos os anos'', revela. Nem um escorregão durante o percurso tirou o ânimo da devota de São José, o padroeiro dos trabalhadores. ''O importante é seguir com coragem e fé.''
Agradecimento também foi o que levou o mecânico Osvaldo Moraes ao cume do Samambaia. ''Já passei cinco anos desempregado e sei como é difícil. É bem mais tranquilo subir qualquer morro do que olhar os filhos com fome'', emociona-se. Para a desempregada Edilene Arantes, a intenção é sair da celebração com uma bênção que se traduza na carteira de trabalho assinada. ''As contas vão acumulando no fim do mês, deixa a gente desanimada. Mas vou sair daqui mais forte, determinada e certa de que serei abençoada com um emprego'', prevê.
A peregrinação também atraiu a costureira Maria Gilza Koltez, que veio com o marido, João Koltez, e dois filhos pequenos. O cansaço foi inevitável, mas o orgulho tornou-se, para ela, o maior combustível do trajeto. ''É o orgulho de subir o morro, de alcançar esse objetivo'', resume Maria. Não dá medo trazer as crianças junto? ''Subindo com cuidado o perigo diminui. Ficamos de olho, mas criança você sabe como é, elas foram até na frente.''
Na frente também foi Rodinei Thomazella, o padre. Um passo aqui, um pulo acolá. E pausa para um copo d'água. ''Deus ajude a gente chegar'', brinca. Ao final dos mais de 50 minutos de caminhada, a recompensa: encontrar fiéis animados e cantando, à espera da missa. ''Não vou falar que não é cansativo, mas chegar aqui vale a pena'', argumenta. A tradição é a missa feita no alto do morro. E será que lá em cima as bênçãos chegam mais rápido? ''A bênção é igual, o sentido é que é o sacrifício, é mostrar a sintonia com Deus'', responde, com bom humor.
E é esse o sentimento de quem participa da comemoração há mais de 12 anos. ''Me sinto purificado, perto de Deus'', afirma o caminhoneiro aposentado Protásio Kusma.

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