Câmara renovada indica derrocada do personalismo
Se nas recentes disputas para a Prefeitura o londrinense tem se mostrado um eleitor dividido entre dois modelos aparentemente antagônicos de política, para a Câmara de Vereadores, ao menos no último pleito, o indicativo que ficou é o de que o cidadão sabe atrelar passado recente do candidato ao discurso atual feito pelo mesmo. É o que se pode observar, por exemplo, da histórica renovação de 70% das cadeiras (19, a partir de 2009) do Legislativo observada no dia 5 de outubro. Boa parte dos substituídos são justamente personagens do escândalo iniciado em janeiro, com a prisão do então vereador Henrique Barros (sem partido), e denunciados, por exemplo, por crimes como concussão (uso do cargo público para obtenção de vantagem ilícita), formação de quadrilha ou improbidade administrativa.
''A possibilidade de que um modelo de política paternalista e personalista seja sepultado depende da própria sociedade, à medida em que ela vá se envolvendo e cobrando seus representantes. Nesse sentido, a renovação na Câmara é um sinal positivo, depois de tantos escândalos só este ano'', conclui o filósofo político Clodomiro Bannwart. Entretanto, ele adverte: a escolha de ''novos'' nomes, apenas, não basta. ''A partir de janeiro, seremos chamados a um olhar muito mais atento para a Câmara Municipal - aí, sim, começa nosso papel de renovação. E se de fato o presidente do Legislativo assumir interinamente a Prefeitura, é um elemento a mais para se fiscalizar; eis, para o londrinense, um momento de aprendizado jamais visto'', sugere.
Menos otimista quanto à próxima composição do Legislativo municipal, o filósofo político Elve Cense é taxativo. ''Como a democracia apresenta mudanças ainda bastante lentas, até pelo perfil dos eleitos, ou por alguns (vereadores) antigos mantidos, acredito que a renovação não foi assim tão radical'', diz. ''Mas é fato que as pessoas têm posicionamento, se envolvem. A instituição Câmara passou por um desgaste tão grande que, mesmo que os envolvidos em escândalos não sejam necessariamente culpados do que são acusados, muitos foram substituídos - diria até que essa crise fez com que o eleitor acreditasse mesmo em quem não teve o nome mencionado'', ressalva.
Já para a cientista política Luzia Herrmann de Oliveira, a renovação de 70% do Plenário ''foi uma resposta dos eleitores aos escândalos''. ''Essa mudança toda foi um fato impressionante e parece confirmar que Londrina se preocupa, sim, com o debate sobre a corrupção'', reforça. Por outro lado, ela destaca que a atuação da mídia foi incisiva nesse resultado. ''A mídia em geral agiu de modo claro contra a crise da Câmara. O escândalo ocupou muito espaço nos telejornais e jornais, lembrando aos eleitores o nome e a posição de cada um dos vereadores; diferente do caso Belinati, no terceiro mandato, quando se espalhara na cidade a idéia absurda de que corrupção é assunto de foro íntimo'', compara. (J.G.)





