Kraw PenasDesafioPaulo: construção de armazéns provocou ciúmes em empresas privadas e até protesto na Assembléia Conhecido como o homem que abriu as fronteiras para a expansão da cafeicultura, uma das maiores riquezas do Paraná nas décadas de 50 e 60, Paulo Carneiro Ribeiro foi um dos responsáveis pela projeção nacional de Londrina, conhecida no auge das extensas lavouras cafeeiras como a Capital Mundial do Café. Nascido em Conceição do Rio Verde (MG), Paulo chegou ao Paraná em 1950, quando o café ainda rendia riquezas apenas para os exportadores instalados nos portos. Formou-se em agronomia no Rio de Janeiro, e como funcionário do Ministério da Agricultura pediu para trabalhar no interior do Paraná.
Em Londrina começou a ter contato com a cultura do café depois que foi nomeado para trabalhar no IBC (Instituto Brasileiro do Café), que acabava de ser criado. Sua dedicação à atividade lhe valeu o posto de diretor do órgão em 1961. Nesse período, seu nome sempre esteve vinculado à modernização da cultura no Estado. Paulo construiu 47 armazéns no Paraná e mais 68 em outros estados. E sempre procurou construir os armazéns ao longo de linhas férreas. Ele explica, hoje, que providenciava a instalação de desvios ferroviários até as unidades para reduzir custos com o transporte.
Paulo Carneiro lembra que naquela época não havia problemas com falta de recursos porque o saldo do confisco cambial era elevado e permitia ao IBC montar essa estrutura que impulsionou o crescimento da região Norte do Estado. Ele admite que acabou angariando muitas inimizades na época, o que lhe valeu até uma moção de repúdio por parte de deputados na Assembléia Legislativa. Uma das explicações históricas é que a construção de armazéns contrariava o interesse da indústria de armazéns particulares, que recebiam aluguéis do IBC.
Mas o café só começou a gerar riquezas para os produtores e consequentemente para o Estado do início da década de 1960 em diante, quando foi criada a Agência do IBC em Londrina. Com a agência, chegou a padronização e a classificação do produto, que antes eram restritas somente à agência do IBC em Paranaguá.
ImpulsoCom a agência, Paulo foi o primeiro a implantar em Londrina a classificação de café por bebida, o que acabou beneficiando diretamente os produtores, que passaram a produzir conforme as exigências de classificação da agência e tinham seus produtos valorizados. Daí desencadeou o movimento de exportadores tradicionais paulistas que vinham ao Paraná para comprar café, o que impulsionou a riqueza da região Norte do Paraná.
Se tinha detratores em Curitiba, Paulo Carneiro não podia reclamar de outras esferas. Como sempre foi um homem bem articulado com as autoridades federais, logo trocou os benefícios dessas amizades pela implantação de uma política cafeeira que beneficiasse diretamente os produtores. Foi dessa forma que conseguiu em Brasília a abertura de linhas de crédito para financiar o café em côco, que ajudou os produtores diretamente na propriedade. Paulo lembra que era um trabalho intenso - junto com outros líderes do setor - dia e noite lembra, em prol da cafeicultura do Norte do Paraná.
Naquela época, embalado no dinheiro que começou a fluir na região, Paulo passou a ser conhecido como o homem que construiu o rico Palácio do Café em Londrina, com detalhes em mármore e pedras importadas. Ele não reconhece essa imagem que seus detratores classificaram como perdulária e afirma que, naquele tempo era diretor e não presidente do IBC.
Depois de encerrada sua carreira no IBC, Paulo Carneiro Ribeiro foi nomeado secretário da Agricultura do governador Jaime Canet, entre 1975 e 1979 - sendo o próprio Canet sempre um dos maiores cafeicultores brasileiros. A primeira coisa que Paulo fez foi promover uma reforma administrativa que eliminou o excesso de cargos de chefia e racionalizou o organograma da secretaria, numa época em que não se falava em redução de cargos públicos.
Depois disso, Paulo importou 1,6 mil novilhas holandesas, que vieram formar a base do material genético de gado de leite de qualidade no Paraná. A bacia leiteira de Castro, conhecida como a melhor do País, foi criada e desenvolvida dessa importação em diante. ‘‘Lotamos vários aviões com as novilhas’’, relembra. Como secretário da Agricultura, Paulo foi quem falou pela primeira vez em conservação de solos com microbacias.
ConservacionistaSegundo Paulo, naquela época ele também já tinha a preocupação com a preservação da fertilidade dos solos do Paraná e precisava adotar alguma técnica emergencial e segura para conter as enxurradas que levavam material orgânico. Também foi presidente da Federação da Agricultura do Paraná, diretor financeiro da CNA (Confederação Nacional da Agricultura) e diretor de crédito rural do Banco Bamerindus, responsável pela compra e modernização da Fazenda Mitacoré, perto de Foz do Iguaçu.
Pessoalmente, Paulo Carneiro Ribeiro afirma que é um homem que nunca perseguiu a riqueza, apesar das diversas oportunidades que teve de ‘‘ser multimilionário’’. Hoje com 73 anos, passou a fazenda de café em Ibiporã (a 18 km de Londrina) para o filho. Vive da aposentadoria de R$ 850,00 (sobre a qual está pedindo revisão) e do aluguel de duas casas, em Londrina e Curitiba. A residência onde mora em Curitiba é alugada. Recentemente recebeu uma herança de família e com o dinheiro vai fazer o que mais gosta e entende: plantar café. Só que desta vez na terra natal, Conceição do Rio Verde.

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