Equipe da Folha
Perto de completar quatro anos, o projeto ''Saúde e Prevenção nas Escolas'', que disponibiliza preservativos para alunos dos ensinos fundamental e médio, tem vários motivos para comemorar. Implantado de forma pioneira em Curitiba, a fase experimental foi lançada em agosto de 2003, atendendo 14 escolas - sete municipais e sete estaduais.
Entre 2003 e 2007, 15 mil alunos foram beneficiados e mais de 45 mil preservativos disponibilizados nas escolas. Tudo foi realizado por meio de parceria dos ministérios da Saúde e Educação, secretarias municipais da Educação e da Saúde, a Coordenação Estadual e Municipal de DST/Aids e o Centro Paranaense de Cidadania (Cepac). Depois de Curitiba, a ação foi levada a outros quatro municípios: Xapuri (AC), Rio Branco (AC), São José do Rio Preto (SP) e São Paulo (SP).
Por aqui o projeto enfrentou resistências iniciais, como a do setor religioso. ''Tínhamos em mãos os dados epidemiológicos, com os números de ocorrências de infecções e também de gravidez na adolescência, que eram críticos. Mas a disponibilização de preservativos enfrenta alguns dogmas religiosos muito grandes, daí a resistência'', revela Mariana Thomaz, coordenadora municipal do Programa DST/Aids da Secretaria Municipal de Saúde. Outro problema, segundo Mariana, era compreender que os profissionais que iriam implantar o trabalho tinham total capacitação. ''Não é simplesmente ir até a escola e disponibilizar o preservativo, há toda uma parte educativa de palestras e orientação'', explica.
Houve também desconfinça das famílias e - principalmente - dos professores. ''Muitas famílias demonstravam medo, mas entenderam que o papel da escola era importante nessa orientação. Já os professores achavam que não era dever deles, mas isso foi solucionado a partir do momento em que o processo passou a ser conhecido, com o trabalho dos grupos de capacitação'', relembra Júlia Cordellini, coordenadora municipal do Programa Adolescente Saudável, da Secretaria Municipal de Saúde.
Os números atuais mostram que a luta pode ter sido fundamental na mudança de comportamento dos jovens. Antes das ações, o número de adolescentes infectados, na faixa etária de 14 a 19 anos de idade, era de 143. Hoje é de 156. ''Houve aumento, mas em menor escala do que havia antes. Número que talvez pudesse ser maior sem as campanhas'', pondera Mariana.
Mãe de um casal de filhos, a bloquista Rosimery Fonseca defende a disponibilização. ''É um assunto complexo, pois ao mesmo tempo você educa e incentiva. É importante haver esse acesso mas, antes tudo, educação em casa, com esclarecimento dos pais para previnir que algo grave aconteça'', argumenta.
Ter o preservativo sempre à disposição é a vantagem apontada pelo estudante Victor Hsiao, 19 anos. ''Isso acaba facilitando o acesso, o que é fundamental para conscientizar os jovens'', opina.
Estudantes e namorados, Marisa, 16 anos, e Luis, 20 anos (nomes fictícios), aprovam a atuação nas escolas. ''Para as meninas é bom, porque muitas têm vergonha de ir até um posto de saúde para buscar ou em uma farmácia, para comprar'', ressalta Marisa. Para Luis, tão importante quanto a prevenção de doenças é a proteção para não engravidar. ''Ter um filho nessa idade é uma coisa muito séria, é preciso evitar. Então acho que a melhor forma é por meio dessas distribuições'', avalia.
E a opinião do estudante se reflete em dados. O índice de gestação na adolescência em Curitiba caiu, ficando em 16% em 2004. Em 1997, era de 19,9%, na faixa de mães entre 10 e 19 anos. A partir de 1999, com as intervenções dos programas, as taxas começaram a cair. A queda envolve gestantes atendidas ou não pelo SUS. Dados da Secretaria Municipal da Saúde mostram que em 2004 nasceram 24.946 bebês, sendo 4.025 de mães adolescentes (10 a 19 anos). Em 2000, nasceram 5.553 crianças de mães adolescentes - 173 tinham de 10 a 14 anos e 5.380, entre 15 e 19. Dos bebês nascidos no ano passado, 116 são filhos de mães entre 10 e 14 anos e 3.909 de mães na faixa dos 15 aos 19. A redução por faixa é respectivamente de 33% e 27%.
''O resultado é fantástico, bastante importante e nos deixa felizes. Tive relato de um professor, certa vez, afirmando que há três anos não se registrava uma ocorrência de gravidez na adolescência ou infecção pelo HIV. Isso mostra como é fundamental levar essas informações aos adolescentes'', comemora Julia Cordellini.
Hoje o programa DST/Aids atende 34 escolas e prepara as ações que serão feitas a partir de março. Entre os projetos para 2007 estão a implementação da formação de adolescentes, que vão ajudar no contato com os outros alunos e participar dos murais e oficinas propostos pela coordenação. ''O adolescente está nos locais onde não estamos, como baladas, festas. Então ele conhece a realidade e passa a ser referência para os outros, que se sentem mais à vontade para buscar informações'', analisa Julia.

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