Cada vez mais perto
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de abril de 2007
Kátia Michelle <br>Equipe da Folha 
A violência é um mercado. Cada vez mais proliferam segmentos nessa nefasta onda. De livros de auto-ajuda que tentam explicar como se livrar do trauma sofrido a empresas de seguros e equipamentos que prometem abrandar o inevitável acontecimento. Diariamente somos bombardeados com notícias trágicas. O mal é apenas adiável. A neurose está instalada. E cada vez mais nos poupamos dos pequenos prazeres. Andar com o carro aberto no calor, sentindo, distraído a brisa no rosto, nem pensar. Outro dia, pensando - ou melhor, deixando de pensar nisso - resolvi arriscar. Peguei minha filha na escola e deixei os vidros abertos. Seguimos cantando, conversando.
Um pequeno engarrafamento causado pelo sinal vermelho, no bairro Mercês, me fez parar o carro. Na minha frente, um Ômega preto. Ao meu lado uma motocicleta. Olhei a moto e pensei justamente que bom seria andar de moto naquela tarde tão quente. Sorri para o piloto que devolveu o cumprimento. A moto passou ao meu lado muito perto do carro, mas não cheguei a me assustar. Encostou na janela do Ômega e o passageiro da moto sacou uma arma. Eu estava a menos de dois metros de distância. Pediu o relógio do senhor que dirigia e ameaçou atirar. Eu estava a menos de dois metros de distância.
Subi o vidro, os outros carros se afastaram. Eu não tinha como sair dali. Olhei minha filha pelo retrovisor, que queria saber porque eu havia parado de cantar. O motorista do Ômega conseguiu virar a esquina e o engarrafamento impediu que a moto o seguisse. Piloto e passageiro fugiram. O segundo ainda empunhando a arma. Eu demorei para conseguir engatar a marcha e seguir em frente. Na verdade, acho que ainda me encontro lá, congelada. Tentando escolher qual será a minha opção, um livro que me ajude a encarar melhor a violência que cresce a cada dia ou uma blindagem no carro...


