Cacique, símbolo de grande coragem
Arquivo FolhaHélio: luta gloriosa da marca

Hélio Duque

Desbravadores, obstinados sonhadores, marcaram um encontro com o desenvolvimento no Norte do Paraná. O ano, 1959. O objetivo: industrializar o café, agregando renda e emprego, num cenário econômico de tradicional sociedade rural. Nascia o projeto brasileiro do café solúvel. A região era a maior produtora mundial daquela matéria-prima, responsável, à epoca, por quase metade do volume obtido em divisas pelo comércio exterior nacional.
Na década de 30, funcionários e pesquisadores do Departamento Nacional do Café (DNC) já haviam chegado à fórmula do café concentrado (solúvel). Infelizmente, aquela descoberta cairia no vazio. Mas iria operar uma profunda transformação na industrialização de alimento e, por extensão, no surgimento de um importante núcleo agroindustrial em nível mundial. Foi quando uma fábrica de alimentos da Suíça capturou o invento, aperfeiçoou-o e já na Segunda Guerra abastecia as tropas em conflito com o café solúvel. No pós-guerra, foi colossal a expansão das indústrias de café solúvel na Europa e nos Estados Unidos. Grupos econômicos monopolizavam o comércio de solúvel em todo o mundo desenvolvido.
O Brasil, maior produtor mundial, não participava deste novo ciclo econômico. Existia no interior de São Paulo, uma unidade da Nestlé que, por acaso, das dezenas de fábricas que implantara no mundo, era a menor. Ficava clara a estratégia de não industrializar o café nas áreas produtoras.
Em Londrina, esse cenário iria mudar. A brava luta de Horácio Coimbra, Aroldo Sardenberg, Aníbal Cabral, Ulisses Ferreira Guimarães e tantos outros acionistas estava apenas começando.
Quando partiram para a importação da fábrica que viabilizaria a indústria, os fornecedores mundiais se fecharam. Na Dinamarca, o protocolo do ‘‘boicote’’ não funcionou. A empresa Niro Atomizer vendeu as máqunas que iriam dar vida produtiva à Cacique. A luta agora era no campo interno. O governo brasileiro não liberava a licença de importação. Recordo-me de um testemunho do saudoso Aroldo Sardenberg: ‘‘As forças que se anteopõem à industrialização do café no Brasil são poderosíssimas’’.
No ano de 1963, Sardenberg se deslocou de Londrina para o Rio de Janeiro 56 vezes. O ano tiveram 53 semanas. No final de 64, a licença finalmente fora obtida. Disso decorre o atraso de seis anos na inauguração da fábrica londrinense. Sua produção começa em abril de 1966.
Tinha início a guerra do café solúvel.
As pressões internacionais, dos interesses contrariados, ameaçavam estrangular na nascente a jovem indústria brasileira. Vender com marca própria o solúvel nos mercados ocidentais, impossível. Fornecia-se a granel, depois empacotado e vendido com a marca das indústrias locais. É quando desperta o espírito mercador de Horácio Coimbra. Ele vai ao Leste Europeu e abre o mercado da então União Soviética para o solúvel brasileiro com marca própria e enlatado em Londrina.
As pressões contra o produto brasileiro envolviam o próprio presidente Lyndon Johnson, que falando para a América Latina. Em 22 de janeiro de 1968, ele destacou: ‘‘Os Estados Unidos consideram que enquanto existir, o Acordo do Café não deverá ser utilizado para dar uma vantagem injusta à exportação do café solúvel’’. O objetivo era taxar na exportação o solúvel brasileiro.
A guerra comercial prolongou-se, por anos, nos fóruns internacionais, culminando com a capitulação do governo brasileiro. As indústrias implantadas permaneceram – as novas, não.
Este ligeiro sumário, testemunha num texto rápido e curto, uma luta de resistência travada a partir do Norte do Paraná. A Cacique, mais do que indústria, é um símbolo de um tempo de coragem desafiadora de homens que tinham uma fé cega no progresso e no desenvolvimento.
- HÉLIO DUQUE é economista e ex-deputado e autor do livro ‘‘A Guerra do Café Solúvel’’, sobre a história da Cacique

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