Pelo petit-pavé da Avenida Luiz Xavier, sete carros alegóricos de Carnaval desfilaram no último sábado, ao meio-dia. Mas não pense que eles eram como os da grande festa popular realizada na Sapucaí no Rio de Janeiro. Os carros eram pequenos. Bem pequenos! Para empurrar, era necessária apenas uma pessoa. Ao todo, quatro integrantes começaram a puxar o samba, escrito por Carlos Careqa e Hélio Leites especialmente para a ocasião. Em seguida, mais pessoas chegaram e a Ex-Cola de Samba Unidos do Botão começou o desfile.
Para entender o evento, é necessário voltar 18 anos na história. Em 1991, o artista plástico Hélio Leites e a artista multimídia Kátia Horn tiveram a ideia que surgiu de uma brincadeira. "Curitiba tem terreno fértil para brincar sobre o Carnaval. O povo é desanimado", explica a animada Kátia. Desde lá, a "menor escola de samba do mundo" (como eles mesmo se intitulam) desfila pela menor avenida do mundo.
No primeiro ano, o evento reuniu aproximadamente 50 pessoas. Cada vez é abordado um tema diferente. Em 1999, o assunto foi o padre multimídia Marcelo Rossi. Foram cinco carros alegóricos na avenida. Mas, como o desfile foi realizado às oito horas da manhã, tradicional horário das missas, não foi quase ninguém.
Este ano, o tema foi sobre as décadas de 70 e 80. Os carros abordaram a ditadura, a neve de 1975, a Copa do Mundo, o Chacrinha e a Madonna. Mais tarde, vieram mais dois: um em homenagem ao cineasta Glauber Rocha (com uma câmera que gravou o movimento na avenida) e outro do arquivo da reconstituição da memória nacional.
"Curitiba é o único lugar em que o Carnaval fora de época acontece durante a época de Carnaval", brinca um dos integrantes da escola. Todos eles usam cachecol enquanto desfilam. "É para espantar o frio", explica Kátia. Teoricamente, a apresentação dos carros dura 15 minutos. Segundo a artista, esse é o tempo máximo que eles conseguem manter a animação dos curitibanos. Além disso, também pode chover ou nevar na cidade, brincam os organizadores. Mas o grupo ficou aproximadamente uma hora na avenida. Porém, entrou atrasado. "Será que vamos perder pontos por conta do atraso?", diverte-se a artista.
O samba-enredo (veja box nesta página) já veio gravado em CD. Assim o puxador já se considerava nota 10. Mas a música estava na ponta da língua de Kátia e ela aproveitou para mostrar os seus dotes musicais, que lembram as antigas e famosas cantoras da era de ouro do rádio. Com o intuito de ajudar no coro, a letra do samba foi entregue para as pessoas que paravam para ver a muvuca.
"Somos despreocupados. Como nos intitulamos a menor escola de samba do mundo, se aparecerem três ou cinco pessoas já está ótimo", diz Hélio Leites, que desfila de óculos com lente quebrada. "É em homenagem às balas perdidas do Rio de Janeiro."

É o Unidos do
Botão aí gente!


A estudante de Jornalismo Vanuza Machado estava pelo Centro para realizar um trabalho da disciplina de fotografia. Quando viu os carrinhos desfilando na avenida, não pensou duas vezes: sacou a câmera e disparou os flashes. "Achei muito massa isso. Não sabia que existia." Ela acabou entrando no clima e arriscou alguns passos. Mas nada de samba: o desfile lembra os bailes de Carnaval dos clubes nos quais apenas passos leves e calmos fazem parte da comemoração.
Vanuza integrou o grupo dos "desanimados" da Ex-Cola de Samba Unidos do Botão e já pensa em participar do desfile no ano que vem. A cômica iniciativa segue firme na promessa de colocar na avenida a menor escola de samba do mundo, mesmo com o olhar reprovador e desconfiado dos curitibanos que passam de longe.


O samba-enredo 70, 80
(Carlos Careqa e Hélio Leites)

Setenta, oitenta
Se quiser tentar, oitenta
Oitenta, oitenta
Se quiser sambar, oitenta
Foi em 75 que nevou pela primeira vez
Parecia algodão doce,
Eu comi, fui parar no HC
E o Pelé
Pelé já brilhava lá no cosmos
E o Ernesto era o Lula do momento
O Chacrinha enfrentava a ditadura
Com as chacretes dando mole na cintura
Eu disse setenta
Setenta, oitenta...
Por gostar de uma picanha
A Madonna olha vejam só
Acabou na cama com a Medonha
E no Brasil era tudo pelo social
E a abertura
A abertura, que fiasco total
"Je vous salut" Roque Santeiro
Papel de bala era coisa de bueiro
Mas a rainha do papel apareceu
Desembrulhando esse nosso Carnaval
Setenta, oitenta...

Os carros alegóricos

- Chacrinha - feito em cima de uma prancha de skate, resgata o trabalho do Velho Guerreiro e suas exuberantes barbies-chacretes.
- Na Cama com a Medonha - apesar da idade avançada, Madonna vem bem à vontade em cima de uma caixa de pizza brotinho.
- A neve de 75 - foi o fato mais marcante nessa década e o carrinho é um tamanco de rodas.
- O carro da ditadura - resgata com espanto os pesados anos de chumbo que o País passou debaixo da ditadura.
- Copa - com diversos bonecos da Seleção Brasileira, o carro retrata a alegria da conquista do título mundial. (D.C.)

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