Burocracia faz tudo para atrapalhar
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domingo, 07 de setembro de 1997
Cristine Pieske Curitiba 
Kraw PenasOs sócios Maria Emília, SpecK e Luchini: paciência e fôlego O talento para a mistura fina de temperos e a idéia de produzir molhos pouco comuns no Brasil renderam ao italiano Giovanni Luchini algumas indigestas noites de insônia. Ex-proprietário de um restaurante na Itália, e acostumado à política de incentivos econômicos no seu país, ele estranhou as barreiras que costumam ser colocadas no Brasil diante das iniciativas dos novos empreendedores. Entre o registro na Junta Comercial e o início da produção de molhos e patês, Luchini e os dois sócios da SaborItália, de Piraquara, perderam mais de um ano. Agora, com pouco mais de um mês de vida ativa, a empresa acaba de fechar um contrato de fornecimento de US$ 35 mil com uma distribuidora argentina.
A confiança que o mercado consumidor coloca na recém-criada SaborItália, no entanto, difere muito dos olhares desconfiados dirigidos pelos gerentes de bancos ao analisar as propostas de financiamento. No Brasil há muito discurso sobre a importância das microempresas, mas na prática pouca coisa acontece, desabafa Luchini, resumindo o drama enfrentado pela maioria dos pequenos. Em todos os países da Europa existe uma cultura real de valorização e confiança nas micro e pequenas empresas, mas aqui as coisas ainda são muito difíceis, diz.
A sócia de Luchini, Maria Emília Baggio Monclar, de Curitiba, afirma que a burocracia só não a impediu de montar a empresa porque a força de vontade da equipe foi maior, e pesou mais do que as dificuldades impostas pelos bancos e pelo próprio governo. Para conseguir o registro da SaborItália no Ministério da Saúde, procedimento necessário para todas as indústrias de alimentos e que equivale a concessão de um alvará de funcionamento, foram necessários mais de sete meses de negociações. Quantos projetos de empresas interessantes e geradoras de empregos não devem estar parados em Brasília?, indaga a empresária.
DiversificaçãoA corrida aos bancos, a maior parte deles fechada para novas idéias, costuma ser outra etapa desestimulante nos planos de criar uma empresa. No caso da SaborItália, que acabara de nascer, a dificuldade foi encontrar instituições dispostas a financiar novos projetos. A maioria dos bancos só aceita conceder crédito a empresas com mais de dois ou três anos de vida, diz Maria Emília. Sem capital para bancar construção de uma estrutura própria, a solução encontrada foi emprestar parte das instalações de outra empresa, a Panaísa Cogumelos, que tem participação societária na empresa.
Atualmente, a SaborItália está novamente se credenciando para obter um financiamento específico para a compra de máquinas e equipamentos. Se der certo, os sócios planejam aumentar a produção de 700 vidros de molho por dia para 1 mil vidros/dia. Além de investir maciçamente na venda de molhos e patês para o mercado brasileiro, já existem projetos de diversificar a produção, fazendo também geléias com frutas exóticas para exportação. Quem quer ter uma empresa precisa ter visão futurista, ensina o italiano Luchini, um dos mais novos e empenhados empreendedores do Paraná.


