Bugrão, o homem do chumbo quente
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sexta-feira, 13 de novembro de 1998
Jota Oliveira 
O impressor Aroldo de Souza, o Bugre, nasceu em Rio Negro (PR), há 71 anos. Quando deu baixa na Cavalaria do Exército entrou na PM, da qual saiu para trabalhar no Paraná Jornal, no início de 1952. Para a Folha veio em seguida, como impressor, e trabalhou 32 anos, até aposentar-se em 1984.
Junto com Pedro Faversani, o Pedrão, 64 anos, 29 como impressor do jornal, Bugre lembra que a primeira impressora adquirida por João Milanez era uma Minerva plana, simples, que imprimia uma página por vez - e por lado. A compra de uma rotoplana foi um avanço, pois ela imprimia quatro páginas por vez. Depois, a rotativa, também usada, comprada em 1956, foi um salto. Da rotativa cuidava o linotipista Laudelino Ferraz, que virou mecânico.
Três homens acidentaram-se na Oficina, nos tempos da rotativa e depois na off set, que chegou e foi instalada em 1969. Um deles viera de São Paulo, para montar a nova impressora. A máquina estava rodando, o mecânico quis tirar um pedaço de estopa e teria perdido a mão se não tivessem parado a máquina. Depois um garoto que trabalhava em outro setor e estava sapeando por lá achou bonitos os rolos macios e botou a mão. Quase a perdeu. Do terceiro, um auxiliar, a fresa quase podou um braço.Paulo WolfgangPioneirismoAroldo Bugrão, Pedro e o Patrão, João Milanez: velhos amigos
Pedro Faversani nasceu em Santa Cruz do Rio Pardo (SP). Era também impressor, mas fazia de tudo: regulava os rolos, colocava as bobinas de papel, deixava a máquina no ponto. Ele começou a trabalhar na Folha mesmo. Quando a off set substituiu a primeira rotativa, foi como sair do inferno e entrar no céu, dizem os antigos impressores.
No tempo da rotativa havia a fundição, da qual Aroldo cuidava. Era, por isso, também fundidor. A caldeira chegava a 700 graus. Os gráficos punham um papel em cima do chumbo, o papel se incendiava na hora. O chumbo fundido era colocado numa forma, depois no flan (forma de papelão), que seria o molde. O flan era lavado, fresado para tirar o excesso de chumbo, para não borrar. Depois, com um formão, eram retiradas as rebarbas, passava para a laminação, que o deixava na medida certa para a rotativa.
O sistema off set tornou o trabalho muito mais simples: o gráfico recebia a chapa de alumínio, colocava, abastecia a máquina com água, tinta e papel. Era só rodar. Mas acabou com outra especialidade de Bugrão: assar linguiça na fundição. Como não havia tempo para as refeições nem dinheiro, o pessoal nunca se apertava e Bugrão providenciava o assado ali mesmo na Oficina.
Na Duque de Caxias, quando começou a impressão própria da Folha, ainda na Minerva, era comum faltar a força da Empresa Elétrica de Londrina. Principalmente nos domingos, lembra Aroldo. Pedrão completa: Aqui (na Rio de Janeiro) também acontecia isso. Nos domingos costumava ficar das 6 às 10 horas sem força; o chumbo esfriava... O pessoal trabalhava de 15 a 16 horas por dia, sem extras. Eles chegavam às 10 horas da noite e podiam trabalhar até às 3 da tarde do dia seguinte. Hoje o pessoal está no céu..., comentam os gráficos aposentados.


