Crianças de Curitiba e região metropolitana, acostumadas com a presença da polícia no bairro para conter a criminalidade, estão vivenciando uma experiência bem diferente. O tiro ao alvo é com bolas de borracha na boca do palhaço, os disparos são dos flashes de máquinas fotográficas para registrar as poses em cima de viaturas ou com as roupas de combate a incêndio dos bombeiros. As brincadeiras de mocinho e bandido são, desta vez, somente entre mocinhos.
Otávio Augusto da Silva, 13 anos, nasceu na Vila Zumbi dos Palmares, em Colombo, na Região Metropolitana, onde mora até hoje. Mal sabe ler e escrever, pois está atrasado nos estudos, mas tem na ponta da língua várias histórias de tiroteios e gente morrendo. Conta tudo com certa naturalidade, como se as cenas de violência devessem mesmo fazer parte de sua vida. Mas, ali, entre outras crianças da vila, esperando a vez para andar a cavalo, Otávio com sua silhueta franzina aparenta ser uma criança como outra qualquer, que sonha em estudar e quem sabe até se tornar um policial quando crescer.
Andar a cavalo não era novidade para o menino que cresceu na vila, cuja fama sempre foi de ser violenta. Com a mesma espontaneidade em que relatou a morte de um vizinho, Otávio conta que já havia montado, pelo menos, outras duas vezes. ''Mas não num cavalo manso. Uma vez um cavalo me derrubou e olha só tia'', disse ele, mostrando uma cicatriz na barriga.
Já para Maiara Thaís Ramos, 9 anos, a experiência da montaria era tão nova quanto a de ter os policiais como companhia das brincadeiras. Mal desce do cavalo e já corre de novo até o fim da fila para garantir mais uma volta. Ao contrário de Otávio, Maiara já está na 3 série do ensino fundamental e com a simplicidade inerente da idade resume o que achou da novidade. ''É muito legal.''
Para os policiais, a aproximação com a comunidade - foco do projeto da Secretaria de Estado da Segurança Pública - em uma atividade diferenciada, também, foi uma experiência única. ''É extremamente gratificante. A sensação que se tem, estando aqui, é de realmente estar fazendo a diferença'', afirmou o cabo Marcelo José Fagundes Oliveira, do Regimento de Polícia Montada Coronel Dulcídio. Ele acredita que o fato do policial poder relatar as dificuldades de de sua rotina pode ajudar a população a compreender melhor seu trabalho.
Acostumada a se debruçar sobre os inquéritos em seu gabinete, a delegada do Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (Nucria), Ana Cláudia Machado, viu-se cercada de crianças que pediam a aprovação de suas habilidades na pintura dos desenhos. A doutora que virou ''tia'' classificou a experiência como ''maravilhosa''. Para ela, além de poder reforçar as orientações às crianças de como se prevenir contra abusos ou violência, essa aproximação é importante para ''quebrar'' a imagem austera que pequenos e grandes têm da polícia.
Se a polícia quer ser vista de outra maneira, comunidades como a da Vila Zumbi dos Palmares também se esforçam para mudar a imagem que os de fora têm da região. A localidade é uma das maiores e mais antigas ocupações irregulares da Grande Curitiba. A área começou a ser ocupada em 1991 e, hoje, reúne mais de 6,7 mil pessoas - população superior a de muitos municípios paranaenses.
Para o presidente da Associação dos Moradores da Vila Zumbi dos Palmares, Genésio Medeiros Filho, a realidade do local já mudou bastante. ''A vila era muito complicada, mas já diminuiu muito o tráfico e o número de mortes'', afirmou ele, lembrando que o processo de regularização fundiária, em andamento, abriu novas perspectivas para as famílias dali.

mockup