Johnlennon Teodoro, 17 anos, é mais conhecido como ''Pirata'' devido à deficiência de nascença no olho direito. Mora no Tatuquara e todos os sábados pega dois ônibus e desce no Terminal do Guadalupe. Junto com Bigode, Emerson, Tutu e Jean, forma há um ano o Beach Boys Freestyle Crew. Do terminal, andam duas quadras até o Shopping Itália. Às 19 horas, quando o prédio, que também tem salas comerciais, fecha, a atividade deles começa. São pés, cabeça, joelhos e calcanhares ao chão, em uma dança que assimila movimentos tão diversos quanto os da capoeira e da ginástica olímpica: o breaking, que tem seu começo na década de 1970, nas ruas do Bronx, em Nova Iorque, e foi espalhado pelo mundo pela televisão e cinema a partir da década de 1980.

A área externa e de piso liso, quase na esquina da João Negrão com a Marechal Deodoro, foi o ponto encontrado por outros jovens para fazer uma batalha, um desafio de breaking há 26 anos, em 1983, dando origem ao que é a mais antiga sessão de prática da modalidade em atividade no Brasil. Parte dos precursores vinham do Pinheirinho e também chegavam no Terminal do Guadalupe, localizado entre o shopping, inaugurado no ano anterior, e a Praça Osório, onde dançavam nas matinês da boate Viva Noite. Dançavam Polaco B., João, Saul, Spike, Valmir e Tubarão ao som de Afrika Bambaataa, um dos primeiros DJ's do hip-hop. Logo, viraram um grupo, uma crew, que assumiu o nome do disc-jockey estadunidense.

A primeira batalha seria na Rua XV, perto do Bondinho, em um sábado que Wilmar Roberto Ayres, o ''Tubarão'', 39 anos, não está certo do mês; apenas que foi no segundo semestre de 1983. ''Ainda não tinha YouTube, mas assistimos um videoclipe chamado 'Street Dance', do Break Machine, e descobrimos que podíamos dançar em qualquer lugar em cima de papelão.'' A ''batalha'' contra o crew Greds (Gilson, Rogério, Edson e Denis), porém, teve de mudar de palco. ''Chegou a polícia. A primeira coisa foi pegar o rádio. Conseguimos fugir, mas eles rasgaram nosso papelão.'' Sem o suporte para proteger do chão, pensaram em um lugar mais liso e a ideia veio quase de imediato: a área externa do Shopping Itália, para onde foram naquele mesmo dia.

As duas comunidades do Orkut que se referem ao local falam de 1986 como início. ''A gente penou muito. No começo, ainda era época de Ditadura e a polícia chegava direto. A gente fugia e voltava e conquistou o Itália na base do cansaço'', conta Wilmar. ''Em 1986 foi quando o pessoal parou de tirar a gente.'' Quando começou, em 1983, ele tinha 14 anos. Hoje, é o único daquela geração na ativa. Aos sábados, vai ao Itália. ''Para me provocar, tem gente que diz que sou apenas o cara que treina há mais tempo.'' No dia-a-dia, há 19 anos, Wilmar trabalha no Corpo de Bombeiros. Ainda que seja o desejo de muitos dos entrevistados desta reportagem, nenhum deles tem o seu sustento na dança.

Tops

Diversos pontos da cidade servem de local de treino para as crews de Curitiba e região metropolitana: a Biblioteca Pública, o 'Museu do Olho' ou mesmo um auditório na Rua da Cidadania do Carmo, espaço utilizado pela Foot Work Crew, criada em ®MDNM¯1997. Diferente de outros grupos de breaking da cidade, mais ligados ao treino para disputas em campeonatos, eles também se dedicam aos outros três elementos do hip-hop: o MC, DJ e grafite. ''Se você fica só no breaking, não consegue vender o show para casas noturnas'', explica Mauro Pereira, o ''Paulistão'', 29, que chega com a box - um rádio movido a oito pilhas grandes, que tem o custo de R$ 12 rateado pela galera.

O Itália não é lugar de treino, mas de troca de conhecimentos e de apresentação de habilidades. Os movimentos impressionam e o alto nível de competição, também. ''Brasília, Curitiba e São Paulo são os principais centros de breaking no Brasil'', comenta Wagner Magnabosco, o ''Baqueta'', 23 anos de idade e b-boy (break boy) há cinco. ''De cada dez campeonatos, Curitiba ganha seis.'' Se não existem estatísticas para comprovar a afirmação de Baqueta, organizador da Batalha Brasileira Individual, realizada na cidade em 2006 e 2007, uma coisa é certa: os dois últimos títulos do Master Crews, o principal torneio de equipes do Brasil, são de grupos daqui. Em 2007 foi a vez da Stil Contact Break vencer o campeonato paulistano. Em 2008, a vitória foi do Flying Boys Crew, de Pinhais.

''R$ 2 mil do prêmio divididos em oito não é tanta grana assim'', comenta Daniel Olimpio, 25. Ele é irmão de Marcelo, o ''Borracha'', criador do grupo ao lado de ''Wolverine''. Hoje, a Flying Boys Crew é uma ONG, funciona como um Ponto de Cultura e oferece aulas de breaking nos colégios da região, como o Luarlindo dos Reis Borges, em frente ao Carrefour Pinhais. ''Eu gosto muito, mas, infelizmente, o breaking não dá dinheiro. É totalmente por nós, underground mesmo'', comenta Daniel, que também trabalha como agente comunitário de saúde e estuda Educação Física na faculdade. Apesar da rivalidade com a Stil Contact Break, já disputaram campeonatos juntos, sob a denominação P21.

Paz

O encontro da juventude de Curitiba e região metropolitana às portas de um shopping tem clima de paz. Cada um que chega, cumprimenta todos na roda, um por um. Perto das 21 horas, o número impressiona. ''Um dia fiquei observando e contei mais de 100 pessoas'', afirma David Nunes Rodrigues, 45, supervisor há 15 anos do edifício em que fica o Shopping Itália. ''O convívio tem sido pacífico e nunca tivemos nenhum problema'', diz. ''É um ponto de referência. As pessoas perguntam: onde fica a dança? Gostam, tiram fotos e ainda divulgam o shopping, pois o nome aparece.'' Nas quartas e sextas depois das 22 horas, horário em que as portas fecham, parte da turma também está reunida. Mas a grande reunião é aos sábados, a partir das 19 horas, no espaço que se tornou local sagrado para muitos b-boys.


Crews de Curitiba e região metropolitana

Veja alguns nomes de grupos de breaking em atividade:
Beach Boys Freestyle Crew
Can Africa Spin
Flying Boys Crew
Flow Rockeds B-boys
Foot Work Crew
Gana 57 Crew
New Crew B-boys
South Brothers Crew
Stil Contact Break
Super Star B-boys
Twister Rock Style

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