De acordo com uma fonte oficial da Embaixada do Brasil em Paris, existem por volta de 24 mil brasileiros na França, entre eles três mil ilegais. Contudo, quanto eles são exatamente, quanto tempo ficam em solo francês, em que condições sobrevivem, é impossível saber. Mesmo sem números precisos e a julgar pelas histórias tristemente vivenciadas por funcionários da Embaixada, assistentes sociais, religiosos e voluntários, a ilegalidade é uma pílula amarga.
Tangidos do Brasil pelo desemprego, insegurança e desigualdade social, homens e mulheres jovens chegam na França sem nada nas mãos e com uma idéia fixa na cabeça: trabalhar bastante, não importa onde, e ganhar euros, muitos euros. O sonho de juntar dinheiro está nos planos de quase todos que atravessaram o Atlântico. Infelizmente, a falta de documentos faz com que muitos percebam logo de cara que o brilho do euro não passa de ouro de tolo.
O mecânico de automóveis, Reginaldo Ferreira da Silva, 25 anos, de Porangatu, Goiás, sabe bem o que é isso. A reportagem encontrou o goiano com a mala nas costas em Paris, na porta da Embaixada do Brasil, depois dele ter vagado aqui e acolá por quase um mês. Silva ia para a Inglaterra atrás de um trabalho prometido por uma das inúmeras agências que divulgam falsos serviços nos jornais brasileiros.
Deportado pela polícia inglesa, foi despejado na França, onde teve contato com um indivíduo da mesma quadrilha da qual faz parte a agência goiana que vendeu a ele o ''trabalho'' na Inglaterra. Acreditando que receberia uma carteira de identidade portuguesa ''quente'', Silva entregou tudo o que tinha e o que não tinha ao estelionatário, perdendo até uma casa que possuía no Brasil. O pai, pequeno sitiante em Goiás, chegou a vender algumas cabeças de gado para lhe mandar dinheiro.
Depois de ter sido espoliado, sobrou para Silva o piso de uma igreja e as ruas de Paris para dormir. Doze quilos mais magro, o goiano recebeu 90 euros da Embaixada do Brasil para ir até à Espanha buscar sua passagem de avião que tinha deixado guardada com um amigo. De lá, ele disse adeus às ilusões e voltou ao Brasil.
Ainda na Embaixada do Brasil a reportagem presenciou a história de outro brasileiro ilegal. Escoltado por dois policiais franceses, o travesti Ronaldo Vasconcelos, dito ''Daniela'', chegou à sala do serviço de assistência aos brasileiros para ser identificado. Preso sem passaporte, ''de calcinhas'', segundo ele mesmo, no ponto de prostituição mais conhecido de Paris, o afamado bosque ''Bois de Bologne'', Daniela afirmou que tinha vindo da Vila Paim, em São Paulo, para trabalhar. ''Uma bicha sumiu com minha mala, com meu dinheiro e todos os meus documentos'', declarou, chocado.
Ao ser questionado sobre qual era sua profissão, ele, bufando, foi à loucura: ''P. Pode escrever aí, meu senhor, mas pelo amor de Deus, me arranje logo os documentos para eu ir embora. Se eu ficar mais um minuto nesse país horrososo, me mato, corto minha goela''. Daniela foi levada de volta ao Centro de Retenção de Paris, de onde foi expulsa do país alguns dias depois.
Nesse mesmo Centro de Retenção, que funciona num impressionante castelo que serviu de prisão à rainha Maria Antonieta e seu marido Luís XVI, antes de eles serem guilhotinados, de frente para o rio Sena, a reportagem visitou há menos de um mês, a londrinense M. K.. Ela foi detida pela polícia francesa quando tentava embarcar no trem Eurostar, rumo a Londres, com um passaporte falso, depois de ter passado o final de semana no parque Disneylândia, em Paris. M. disse que trabalhava como babá em Londres por mais de um ano.
No julgamento, que foi feito com a ajuda de um tradutor, ela tentou convencer o juiz de que tinha dinheiro para pagar sua própria passagem e voltar ao Brasil naquela mesma hora. ''Ele foi arrogante e não aceitou, preferindo a expulsão, um absurdo. Eu vim aqui para descansar, gastei o meu dinheiro pagando hotel caro e até aluguei um carro. Eu nunca mais volto a esse país'', revoltou-se. M. disse que não sabia que seu passaporte não era autêntico. ''Eu o consegui num escritório em Londres, mas não paguei nada por ele'', garantiu.
A reportagem esteve com M. no mesmo dia em que ela viajaria para o Brasil. Abatida, depois de ter passado uma semana no Centro de Retenção, ela disse que não sabe se volta algum dia para a Europa, mas se ficar no Brasil tem planos de comprar um caminhão. ''Ser caminhoneira é um sonho que agora posso realizar.'' (M.B.)

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