Brasileiros no Japão, japoneses no Brasil
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quarta-feira, 17 de junho de 2015
Mie Francine Chiba<br>Reportagem Local 
Quando chegam ao Japão, os brasileiros descendentes de japoneses encontram um ambiente totalmente diferente do que estão acostumados a ver por aqui. A língua, os costumes, a comida, as regras, tudo é contrastante. Depois de um longo período de esforço para se adaptar a um novo país, eles retornam ao Brasil. E aqui, precisam se readaptar ao modo de se viver no Brasil.
Esta é a realidade de 130 mil brasileiros descendentes de japoneses que viajaram ao Japão em busca de trabalho (dekasseguis) e voltaram ao Brasil. Em dezembro de 2014, ainda havia 175,4 mil brasileiros no Japão. Os dados são do Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador no Exterior (Ciate) repassados pela professora Estela Okabayashi Fuzii, diretora do Departamento de Informação e Apoio ao Dekassegui (Diad), da Aliança Cultural Brasil Japão.
Este ano, faz 25 anos de uma mudança na lei japonesa de imigração que permitiu a ida de descendentes de japoneses ao Japão com visto de trabalho temporário de longo prazo. O ano de 2005 foi o período em que havia mais brasileiros no Japão, número que chegou, na época, a 320 mil, afirma a professora Estela. Os descendentes paranaenses têm representatividade - sempre corresponderam a um quarto do número de brasileiros no Japão, diz a professora. No caso de 2005, eram 80 mil paranaenses descendentes de japoneses no Japão, sendo que a maioria (60 mil) saíram do Norte do Paraná rumo à terra do sol nascente.
Segundo a professora Estela, que também é diretora do Núcleo de Estudos da Cultura Japonesa da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e conselheira acadêmica do Ciate, 25 anos atrás, na "Era Collor" a economia brasileira não andava bem. Isso fez com que brasileiros buscassem oportunidades de trabalho no Japão.
Entretanto, após a crise econômica mundial, o número de descendentes no Japão começou a cair, conforme explica o cônsul do Japão em Curitiba, Takahiro Iwato. "Antes da crise econômica de 2008, oriunda dos EUA, 300 mil brasileiros ou nipo-brasileiros foram para o Japão e viveram lá. Depois da crise, esse número diminui até dois terços". Estima-se que, até 2014, 130 mil brasileiros tenham voltado do Japão. Hoje, o número de brasileiros por lá volta a aumentar gradualmente. "Agora, como o Brasil já não está mais muito bem, está começando novamente a procura por emprego no Japão", complementa a professora Estela Okabayashi.
A maior parte dos brasileiros que chegam no Japão vão trabalhar no chão de fábrica. O setor de processo de produção foi o que teve a segunda maior oferta de vagas nas cidades com maior concentração de nipo-brasileiros em maio deste ano, segundo estatísticas da Divisão de Política de Emprego dos Estrangeiros do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar Social divulgadas pelo Ciate. Nesse período, havia oferta de 10,7 mil vagas nessa área. O setor de serviços tinha a maior oferta em maio, com 14,2 vagas. Em relação à procura, entretanto, a situação se inverte: nesse mesmo período, a maior procura por vagas no Japão se dava no setor administrativo (auxílio, secretariado, etc.). Cerca de 12,9 mil pessoas buscavam emprego na área, enquanto apenas 9,1 mil e 4,8 mil buscavam vagas nos setores de processo de produção e serviços, respectivamente.
"No Japão, existe todo tipo de trabalho. O maior número é no chão de fábrica, mas isto não quer dizer que não existam ofertas de emprego melhores. Porém, para conseguir, é preciso ter domínio da língua japonesa", comenta a professora Estela. Ela conta que a maioria dos brasileiros que vão trabalhar no país nipônico não têm domínio da língua japonesa. Com o aumento da comunidade brasileira por lá, muitos descendentes nascidos no Brasil se encarregaram de trabalhar como tradutores no Japão. Isso diminuiu ainda mais a proporção de pessoas que aprendem a língua japonesa.
Alguns brasileiros escolhem permanecer no Japão...
Além da falta de domínio da língua, aspectos culturais também dificultam muito a adaptação dos brasileiros ao novo País. O ato de falar alto é apenas um dos hábitos que podem causar estranhamento ao japonês, conta a professora Estela Fuzii, do Departamento de Informação e Apoio ao Dekassegui (Diad), da Aliança Cultural Brasil Japão. Mas hoje, a grande comunidade brasileira que se formou por lá já se encarrega de orientar os recém-chegados sobre os costumes nipônicos, diminuindo o impacto causado pelos conflitos culturais.
Alguns brasileiros já sentem tão à vontade na nova cultura que passam a morar por lá. Segundo a professora Estela, até dois anos atrás, 80 mil brasileiros conseguiram visto permanente no país oriental. Esses, então, deixam de ser dekasseguis. "Interessante refletir até que ponto podemos dizer dekasseguis, porque não é pequeno o número de dekasseguis que está lá e que não tem intenção de voltar, de regressar para o Brasil. Porque já casaram, porque já têm filhos e os filhos já começaram a frequentar as escolas, colégios, universidades. Muitas famílias já estão adaptadas e decidiram ficar no Japão para sempre", comenta o cônsul do Japão em Curitiba, Takahiro Iwato.(M.F.C.)
...outros retornam ao Brasil
Até 2014, 130 mil dos brasileiros que foram ao Japão voltaram ao Brasil. Seja por já terem atingido o objetivo financeiro, por não desejarem que os filhos se formem no Japão, por quererem reencontrar a família aqui, ou por não conseguirem mais se sustentar no exterior. É o que afirma Luciano Matsumoto, integrante do comitê gestor do grupo Integranikkey, formado por empresários da comunidade japonesa de Londrina. Um dos comitês temáticos do grupo, formado recentemente, tem o objetivo de dar apoio aos dekasseguis que retornam ao Brasil com capacitações profissionais e atendimento multidisciplinar com psicólogos e fonoaudiólogos, por exemplo. Está previsto um evento direcionado a esse público em agosto, com palestras com diversos profissionais.
Segundo Matsumoto, os retornados do Japão passam por diversas dificuldades ao chegarem no Brasil. "Os filhos sofrem em relação à adaptação escolar, à língua, ao preconceito, a lidar com o retorno para um mundo completamente diferente, e os pais precisam fazer uma readaptação profissional. Às vezes, vão desempenhar um trabalho para o qual não têm qualificação e ganham um salário totalmente incompatível com o que ganhavam lá", justifica.
Quando retornam, os dekasseguis já perderam muitos dos relacionamentos que mantinham no Brasil, relata Matsumoto, o que dificulta ainda mais a sua recolocação no mercado de trabalho. Por isso, para ele, é importante que os retornados do Japão se conectem novamente às pessoas e se capacitem para voltar ao mercado de trabalho. E este é o objetivo do grupo do qual ele faz parte. (M.F.C.)


