Em meados das décadas de 30 e 40, os primeiros moradores do Boqueirão, na região sudeste de Curitiba, entraram de cabeça - e também com pás e enxadas nas mãos - em projetos para melhorar a vida no bairro. A necessidade mais urgente era a construção de ruas que garantissem a comunicação com o restante da cidade, além de obras para drenagem do banhado, que se estendia por praticamente todo o solo.
Na década de 70, outro grupo de moradores tomou caminho semelhante. Unidos em torno da Associação Comunitária Santo Inácio, por quase 20 anos eles lutaram - e conseguiram - melhorias para sua população. ''Em 1976 tivemos a vitória pela água, que só vinha até a Vila Hauer. Foram 17 quilômetros de cano'', lembra o ex-presidente da entidade Elias Saade Filho. Outras vitórias do grupo foram a construção de uma escola, de um posto de saúde que instituiu um novo sistema de atendimento, e de uma fábrica de manilhas. ''Saúde também é saneamento básico'', diz ele.
Esses não são casos isolados. São apenas dois exemplos de um bairro que coleciona histórias onde o espírito de união, solidariedade e coletivismo foram o diferencial para a garantia de conquistas. A situação topográfica e o relevo do bairro serviram, talvez, de impulso para que os moradores fossem atrás do que queriam. Inicialmente, o bairro era uma fazenda de mil alqueires com terras úmidas e grandes banhados, onde se praticava extração de madeira e criação de gado. Dessa época surgiu o nome: Boqueirão, palavra utilizada para representar uma cova grande e profunda ou um terreno úmido e alagadiço, como o que dominava toda área localizada abaixo da Marechal Floriano, nas proximidades dos rios Belém e Iguaçu. Como se não bastassem os banhados, as estradas e caminhos eram intransitáveis.
Os primeiros desafios estavam colocados: a dragagem da região, canalização do rio Belém e abertura de um caminho até o centro da cidade. Até então, a Marechal Floriano ia apenas até o asilo Nossa Senhora da Luz, na esquina com a atual Avenida Kennedy. Interesses financeiros da Companhia Territorial Boqueirão, criada para fazer o loteamento do bairro, foram fundamentais para as melhorias. Mas também não dá para esquecer a participação decisiva dos soldados do Exército, que assumiram o trabalho de abertura da Marechal, em troca da área do quartel do Boqueirão. Nem o dos moradores, que engajaram-se no trabalho.
''Fui eu quem mandei fazer a Rua Antonio Schiebel. Hoje é tudo asfalto. Antes era difícil. Eu morava na sede da fazenda Boqueirão e namorava uma mocinha no Xaxim. Ia a pé ou a cavalo'', conta João Koop, de 84 anos, há 72 morando no bairro. Koop faz parte de outra comunidade importante para o bairro: o grupo dos menonitas, russos fugidos do comunismo, que ali se estabeleceram na década de 30 e que por anos foram reponsáveis pelo abastecimento de mais de 50% do leite consumido na cidade. Até hoje, igrejas, a Escola Erasto Gaertner, a Praça dos Menonitas e o alemão que ainda se ouve em algumas ruas são testemunhas dessa presença.
''Hoje o Boqueirão é uma cidade. É só trabalhar, ganhar dinheiro e aproveitar'', diz Koop, lembrando que foi com histórias como essas, que contaram com a participação dos moradores, que o Boqueirão cresceu e se tornou em um dos bairros mais importantes da Capital.

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