Bom bocado multicultural
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quarta-feira, 20 de junho de 2007
Flora Guedes<br> Equipe da Folha 
No finalzinho da tarde, uma multidão toma a Praça Osório, durante a Feira do Pinhão, que só acaba em julho. Mas parece que a praça tem um imã. A atração se deve a força quase que ''magnética'' que os aromas de comidas apetitosas e típicas de diferentes regiões do País e do mundo exercem sobre os curitibanos. Povo acostumado a conviver com a cultura de vários povos, sabe aproveitar o que há de mais gostoso dessa integração. A gastronomia.
Grupos de estudantes saem do cursinho para desgustar pierogis poloneses, enquanto que na barraquinha ao lado, um casal de namorados pede fogazzas. Do outro lado da praça, num imenso tacho é preparado yakissoba para a clientela esfomeada que chega depois das 18 horas. Mãe e filha mal aguentam esperar a baiana servir o acarajé. A garota pede mais uma tapioca recheada com queijo, coco e leite condensado. Perto dali, uma moça não sabe se pede uma porção de bolinhos de bacalhau ou uma tortilha mexicana. Na dúvida, ficou com as duas.
Enquanto isso, uma senhora aguarda ansiosa que o tucupi ferva logo. O caldo feito da mandioca brava ralada e fermentada é ingrediente indispensável para que sua cuia de tacacá seja preparada com a goma e porções generosas de jambu e camarão seco. ''O tucupi é um caldo cítrico temperado e deve ser cozido no ponto certo, caso contrário pode prejudicar a saúde. A goma é retirada da mandioca e o jambu é trazido do Norte'', explica a paraense Daíse Silva, 22 anos, que trabalha na barraca de comidas nortistas da tia, há um ano.
''O jambu é uma folha que só cresce na região amazônica e causa sensação de dormência na língua. Se come o tacacá muito quente, o que faz a pessoa suar bastante e provocando um bem-estar. É muito diferente, exótico e afrodisíaco'', disse Daíse, que ainda sugere o Pato no Tucupi. A ave, assada e depois cozida no tucupi, é servida com arroz, jambu e farinha d'água, uma farinha de mandioca amarela e com grãos mais crocantes. Lá também é vendido a pupunha, que cozida é semelhante a textura do pinhão ou mesmo uma tigela do açaí ''Pai D'égua'', com ovo de codorna, guaraná em pó, aveia e amendoim.
No friozinho da estação, muita gente faz uma paradinha na feira para tomar o quentão da dona Nídia Franci. Descendente de italianos, ela é produtora de suco e vinho da uva terci, cuja safra só acontece uma vez por ano, e dura cerca 40 dias. ''No Brasil, o quentão traz o vinho e a cachaça juntos. O meu quentão é apenas com o vinho que eu mesma faço e tempero com ervas, prefiro não misturar com bebida destilada. Na Itália também se toma o vinho quente, assim da forma como preparo'', conta a simpática dona Nídia.
A produtora leva para a feira dois caldeirões da bebida, que ainda é servida com gemada. Bastante pedido é o sanduíche recheado com polpetta, carne de alcatra moída e assada no formato de hambúrguer, bacon, salada e molho tártaro. O cardápio é todo escrito em italiano. ''Faço isso para que os fregueses me perguntem. Gosto dessa interação, de conversar, do corpo a corpo. Atendimento com senha não é caloroso'', justifica ela que é amante das Artes Plásticas e da Literatura. O rótulo do seu vinho e suco de uva traz dizeres de pensadores modernos e sua barraca ostenta um quadro do pintor Érico Silva.


