O body piercing está ganhando mais adeptos entre as mulheres, como atesta a estudante Mariana Teixeira Oliveira, que colocou um há seis meses


O brinco espetado nas costas entrou como complemento da tatuagem do produtor Luiz Antônio Schuchowsky. ‘‘O resultado ficou muito interessante’’





‘‘O piercing é um misto de ritual de sacrifício e forma de agredir a sociedade’’, diz o tatuador Paulo Tattoo (foto da esq.), que atende um crescente público. Na hora de fazer o furo (foto da dir.), uma aplicação de anestesia local espanta a dor








O motoqueiro-viajante Eddie é um exemplo dos membros das tribo

A mania do body piercing - termo que define a prática de espetar brincos e outros adereços de aço em partes do corpo como o umbigo, peito, ombro, nariz, queixo, língua e locais ainda mais esquisitos - pegou definitivamente. E não pára de se alastrar, como ficou claro com a chegada do verão, estação onde os corpos ficam mais à mostra e a novidade ganhou ainda mais destaque.
Basta procurar um pouco para encontrar alguém usando estes adereços. Iniciada entre as tribos mais alternativas, a onda se espalhou entre os jovens em geral e está ameaçando alcançar popularidade igual a das tatuagens, outra forma de decorar o corpo que vira febre no verão. ‘‘Usar um body piercing é uma maneira de agredir a sociedade. E esta agressão tem a mesma força, ou até mais, que as tattoos. Só que possui uma vantagem: quando a pessoa enjoar do visual, pode tirar os brincos na hora, sem nenhum problema. A aceitação é muito grande em função disso’’, diz o tatuador Paulo Tattoo, que no seu ateliê, um dos mais procurados da cidade, também ‘‘instala’’ piercings.
Três pessoas por dia, em média, saem do ateliê de Paulo Tattoo com as peças de aço cirúrgico cravados na carne. O preço é de R$ 40,00, incluindo o brinco ou trave (espécie de rebite especialmente criado para este fim). Uma providencial anestesia local (veja texto ao lado) também faz parte do ‘‘pacote’’. Transfixar a carne com artefatos de metal pode parecer assustador até para os marmanjões mais destemidos. Apesar disso, os piercings estão sendo mais procurados pelas mulheres, segundo o tatuador. ‘‘Das pessoas que atendo, 85% são mulheres. O piercing virou uma moda entre as meninas, principalmente as mais novas, na faixa dos 15 anos’’, atesta.
A estudante Mariana Teixeira Oliveira, 15 anos, há seis meses carrega um brinco no umbigo. Inspirada pelos tios, que trouxeram a novidade de Nova York, ela fez o piercing numa época em que a moda ainda não tinha sido detonada com tanta força. ‘‘Agora todo mundo está fazendo. Apesar de ainda ter gente que acha estranho e fica olhando, o piercing já não causa tanto espanto como antes’’, conta. Nem com os pais ela encontrou grandes objeções. ‘‘No começo meu pai deu umas olhadas fazendo uma cara esquisita. Mas passou um tempo e ele não falou mais nada’’.
O produtor Luiz Antônio Schuchowsky, 23 anos, que fez um piercing nas costas há dois meses, também destaca a maior aceitação deste tipo de decoração corporal. ‘‘As pessoas não levam pelo lado de marginalizar quem usa, como se fazia com os tatuados no passado. O que existe é muita curiosidade. Quando estive na praia, há algumas semanas, várias pessoas vieram me perguntar como era feito e se eu tinha sentido muita dor’’, explica.
O piercing de Schuchowsky foi integrado a uma tatuagem que ele já carrega há cinco anos. ‘‘Vi o pessoal usando e achei que era uma coisa ao mesmo tempo legal e muito louca. Então resolvi colocar sobre a tatuagem, como se fosse um brinco na mulher que tenho desenhada nas costas’’, completa. ‘‘Estou pensando em colocar mais um, mas ainda não sei em que parte do corpo’’.
A ‘‘piercingmania’’ atrai alguns adeptos que não estão preocupados só com o visual. O prazer em sentir dor faz dos praticantes do sadomasoquismo clientes habituais. ‘‘Outro dia entrou um cara no ateliê e pediu para que eu colocasse o piercing sem anestesia’’, lembra Paulo Tattoo. ‘‘No final, ele virou para mim e disse: ‘adoro sentir dor’’’. A turma dos harleyros - e motoqueiros em geral - também cultua os piercings.
O motoqueiro paulista Eddie (prefere ser chamada apenas pelo apelido, alegando que não lembra o sobrenome), 29 anos, - um mecânico que passa metade do ano viajando pelo país, acompanhando praticamente todos os encontros de motociclistas - traz no rosto uma boa dose de metal. Um prego de sete centímetros atravessa seu nariz. ‘‘Faz parte da loucura que é levar a vida em cima de uma moto’’, tenta justificar.
O crescimento da moda do piercingfez Paulo Tattoo desenvolver uma teoria sobre a atração que os brincos espetados causam nas pessoas. ‘‘Assim como a tattoo, o piercing é uma espécie de ritual de sacrifício. Esse tipo de coisa sempre fez parte do ser humano. Durante toda a história existiram culturas nas quais se praticou algum tipo de autoflagelação, seja física ou psicológica. Nos dias de hoje, perto da virada do século, não é diferente’’, resume Paulo Tattoo.

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