São Paulo – As ruas não são - e nunca foram - o melhor local para levar uma conversa com privacidade. Agora, com a multiplicação dos blogs, piorou. Qualquer um corre o risco de ver seu bate-papo reproduzido em um site de fofocas alheias roubadas, como é o caso do brasileiro ‘‘Conversas furtadas’’ (www.insanus.org/conversas) e do estrangeiro ‘‘Overheard in New York’’ (www.overheardinnewyork.com), que leva o subtítulo de ‘‘a voz da cidade’’.
  Para quem não foi ‘‘furtado’’ e corre o risco de se meter em confusão ou constrangimento, os blogs oferecem horas e horas de conversas divertidas e reais.
  O ‘‘Conversas furtadas’’ começou em maio de 2005 inspirado em um papo entreouvido, pelos fundadores, num restaurante universitário da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
  ‘‘Já estava há tempos com vontade de fazer um blog com um assunto definido e mais ‘artístico’. No entanto, não é original. Nos Estados Unidos já existiam blogs do gênero, como o ‘Overheard in New York’’’, diz o editor, Trasel.
  A idéia do ‘‘Overheard in New York’’ é tentar capturar o sentimento de uma caminhada por Nova York. ‘‘Você ouve um mendigo, então ouve um executivo, um maloqueiro, diferentes grupos falando entre eles’’, explica David Barnette, um dos editores do site.
  Os mendigos ou sem-teto acabam até usando parte das esmolas que conseguem nas ruas para acessar o site. ‘‘Ocasionalmente, recebemos e-mails deles, que adoram o site. Damos voz aos mendigos, em vez de ignorá-los, e os retratamos com uma afeição com a qual nenhum outro meio de comunicação faz’’, diz Barnette.
  Depois do site nova-iorquino, que foi o pioneiro, em 2003, surgiram dezenas de blogs dedicados à escuta de conversas alheias. O ‘‘Overheard Everywhere’’ recebe fofoca de tudo quanto é lugar do mundo, enquanto o ‘‘Overheard at the Beach’’ é focado em fuxicos ouvidos em areias de praias.
  Outro bastante popular é o ‘‘Overheard in the Office’’, que funciona mais ou menos como a rádio-peão das firmas. ‘‘As pessoas gostam de escutar os outros tanto quanto gostam de observar’’, acredita Barnette. É a internet a serviço da indiscrição.
Ibope
  Curiosamente, 95% da audiência do ‘‘Overheard in New York’’ está fora da cidade. Todo mundo parece interessado em saber o que os nova-iorquinos estão dizendo. E Barnette acha que o blog funciona também como uma forma de documento do que as pessoas estão falando. ‘‘Imagine só se ele existisse em 1909. Eu adoraria ler hoje. Então, é um arquivo fascinante também’’, considera.
  Tanto o blog nova-iorquino quanto o brasileiro aceitam colaborações dos leitores - é assim que eles são alimentados freqüentemente. Mas, para ser boa o bastante para sair do anonimato, a conversa precisa ser real. Não vale piada, embora a maior parte delas seja engraçada. Barnette diz que é preciso encontrar colaboradores confiáveis que mandem apenas fofocas reais. ‘‘Conversas reais geralmente são malucas, e as melhores sempre me fazem rir toda vez que eu olho para elas’’, diz o editor do site, responsável por dar títulos engraçados.
  Nova York não é a única cidade com um blog de conversas furtadas. Londres, Chicago e Dublin também têm suas versões, mas a nova-iorquina faz tanto sucesso que até já publicou um livro pela Penguin. A compilação, feita pelos criadores do site, S. Morgan Friedman e Michael Malice, é descrita como uma coleção de ‘‘conversações bizarras, histéricas e misteriosas entreouvidas em caminhadas, no metrô ou na mesa ao lado.’’
  Da cidadezinha do interior até a grande metrópole, as cidades têm o básico que estes blogs necessitam: personagens curiosos. ‘‘Eu diria que as pessoas gostam de ler basicamente sobre tudo. Amor e sexo, comida e dieta, política e poder, religião e espiritualidade, beleza e moda, cultura e entretenimento, celebridades e fofoca, bebida e drogas’’. Até agora, esta mistura frenética vem funcionando. O ‘‘Overheard in New York’’ tem quatro milhões de acessos por mês.

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