Tudo que é muito bom e agrada, merece bis. Deve ser por isso que não houve dificuldades do Fundo Municipal da Lei de Incentivo Cultural em aprovar a segunda edição da Grande Garagem que Grava. O projeto propõe gravar ‘‘ao vivo’’, literalmente numa garagem, o trabalho musical de bandas curitibanas autorais e entregar o CD prontinho. Numa cidade, onde esses grupos parecem brotar nos bairros, nada mais justo que exista um projeto dessa natureza. Estima-se que há mais de 250 bandas ‘‘de garagem’’ profissionais, em Curitiba. Em 2005, 16 grupos participaram do projeto e, nesse semestre, outras 14 bandas autorais ganham o formato fonográfico de qualidade dos seus trabalhos.
  Ganham porque o projeto é subsidiado por recursos da Fundação Cultural de Curitiba. A produção do show, gravação, mixagem, capa do CD e a própria fabricação é tudo custeado pelo município. ‘‘As bandas não têm dinheiro para gravar seus discos porque é muito caro. E a proposta do projeto é exatamente promover isso. A tiragem inicial é de 50 cópias gratuitas e as bandas vão comprando mais depois. É um velho truque punk, damos tudo para os caras terem capital de giro. Se eles usarem 25 para divulgar o trabalho e venderem 25, terão capital para fazer mais 100 discos. Teve banda que fez até 500 cópias’’, explica o músico e produtor fonográfico, Rodrigo Barros, 44 anos, o Rodrigão.
  Rodrigão e Luiz Ferreira, 43 anos, são os responsáveis pela Grande Garagem que Grava. ‘‘Música independente não se vende em lojas, se vende em shows. No mercado underground a banda faz o show e vende dez discos para o público, é assim que funciona. Por isso que a tiragem é pequena’’ completa Ferreira, acrescentando que boa parte das bandas tocam rock, mas o universo é amplo, vai de música brasileira a death metal. ‘‘Se a banda quiser pegar o fonograma e fazer mil cópias, tudo bem, a gente não tem vínculo algum, porque o trabalho já está pago, só queremos o crédito. Somos donos da gravadora, não do direito da música’’, esclarece Luiz Ferreira.
  Na primeira edição da Grande Garagem, em 2005, foram produzidos 16 discos, na gravadora que fica no bairro Rebouças, lançados em dois boxes que são a coleção Grande Garagem que Grava e o Sabadabadoo. ‘‘Na verdade era para fazer apenas oito discos, mas a procura foi tão grande que resultaram em duas caixas’’, lembra Ferreira, que junto com Rodrigão, iniciou o trabalho com bandas de garagem, ainda em 2003, gravando músicas demo. ‘‘Mas vimos que não tinha muito resultado. Daí veio a proposta de gravar e incentivar a produção musical autoral. Não gravamos intépretes’’, disse ele.
  ‘‘A gente grava as bandas boas da cidade. Das cerca de 200 que existem, apenas 70 são boas de verdade. As mais profissionais estamos gravando. Esse é o truque da garagem, não pegamos bandas iniciantes, gravamos ‘‘ao vivo’’, não adianta botar quem está começando. Queremos registrar o espírito verdadeiro da banda’’, raciocina Rodrigão, dizendo que falta à Curitiba um mercado mais bem organizado. ‘‘Tivemos o privilégio de escolher as melhores bandas para a segunda edição, justamente porque tivemos uma versão anterior, que deu muito certo’’, disse ele, informando que os 14 grupos que gravam, nesse semestre, foram indicados já no edital e que o orçamento destinado é de R$ 76 mil.
  Nessa edição, além dos CDs, os grupos também terão DVDs, frutos de um projeto paralelo que grava o making off e os shows da Grande Garagem. Nos shows, com capacidade para cerca de 100 pessoas, é cobrado ingresso, dinheiro usado para pagar porteiro, bilheteiro e o Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição). ‘‘O grande incentivador é o Fundo Municipal, nós somos prestadores de serviço’’, disse Ferreira. ‘‘Se abrir outro edital, vamos participar de novo. Para a Prefeitura é muito bom o projeto. Se a Fundação for gravar um CD não sairá por menos de R$ 30 mil. Fazemos 15 por R$ 79 mil. Temos o peso da coleção, do projeto. Já temos uma grife cultural’’, conclui ele.

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