São Paulo - Um homem da Cúria Romana - era o braço-direito de Karol Wojtyla - e defensor dos dogmas da ortodoxia católica. Joseph Ratzinger, o novo Papa, é o homem que pede aos fiéis que despertem de seu ''cristianismo cansado'' e o cardeal capaz de dizer no sermão da última Sexta-Feira Santa: ''Quanta sujeira há na Igreja! E mesmo entre aqueles que, no sacerdócio, deviam pertencer completamente a Ele''. Fala de Inquisidor? Ele mesmo responde: ''Eu não sou o Grande Inquisidor, nem me sinto uma Cassandra (profetiza de desgraças)''.
O novo Papa já foi definido como o ''homem do não''. De fato. Bento XVI nunca economizou essa palavra desde que se tornou o guardião da fé católica pelas mãos de seu antecessor, João Paulo II, que lhe nomeou em 1981 Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o ex-Santo Ofício. As negativas ele explicou como atos de bondade. Esta, disse, ''implica também a capacidade de dizer não''.
Negou, assim, o acesso ao sacerdócio às mulheres e o casamento entre gays, aconselhou a castidade aos homossexuais, condenou a entrada da Turquia na União Européia, vetou o casamento de padres e a comunhão de divorciados e combateu a clonagem humana, o uso de camisinha e até o rock. Suas mãos esmagaram os adeptos da Teoria da Libertação, cujo líder, Leonardo Boff, foi seu aluno na universidade de Tubingen (Alemanha).
Surgida na América Latina nos anos 60, a Teologia da Libertação defendia uma opção preferencial pelos pobres e lutas políticas como a da reforma Agrária. O novo papa considerou essa idéias muito próximas do marxismo e puniu seus seguidores - Boff foi impedido de falar e escrever sobre o tema.Em visita ao Brasil em julho de 1990, Ratzinger expôs suas razões: ''Tenta-se reduzir a Igreja a uma opção ideológica, a um partido político''
Das mãos de Bento XVI saíram em 2000 o documento Domine Jesus, no qual ele sustentava que ''somente na Igreja Católica há a salvação eterna''. Provocou, então, a reação do teólogo Hans Kunig, que assim como ele foi professor em Tubingen. ''A declaração do ex-Santo Ofício (Inquisição) é uma mescla de atraso medieval e mania de grandeza.''
Em 1984, chamou o comunismo de ''uma vergonha do nosso tempo'' e causou uma crise diplomática com o leste Europeu - Agostino Casaroli, então secretário de Estado do Vaticano, ameaçou demitir-se. A crise foi contornada com Ratzinger dizendo que aquela era apenas sua opinião pessoal. Com a queda do comunismo, porém, atacou o capitalismo triunfante. ''É necessário combinar a liberdade de mercado com a responsabilidade em relação ao outro.'' Também atacou o laicismo porque ''parcial e não responde às indagações do homem''.
Participou do conclave que elegeu João Paulo II. O Papa não esqueceu quem o apoiou. Fez de Ratzinger o chefe da Congregação para a Doutrina da Fé e estabeleceu uma parceria com o alemão que iria durar até o fim de sua vida. Os dois reuniam-se uma vez por semana, às sexta-feiras, e costumavam almoçar juntos e discutir questões doutrinárias.
Desde a morte do Papa Wojtyla, a figura de Ratzinger, que se havia tornado em 2002 o decano do colégio cardinalício, destacou-se dos demais. Foi ele quem rezou a missa de exéquias do Papa morto e que fez a homilia da missa solene Pro eligendo romano pontifice. Era um dos principais papabili e apontado por vaticanistas como Sandro Magister como o ''único verdadeiro candidato no conclave'', pois os progressistas que se lhe opunham não tinham um único candidato. Assim, após três votações, Ratzinger entrou Papa e assim saiu do conclave.

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