São Paulo - Entre 1949, quando saiu o primeiro livro de teoria feminista, ''O Segundo Sexo'', e hoje, muito mudou. ''Não foram as mulheres que puseram os valores femininos em oposição aos masculinos'', escreveu na época Simone de Beauvoir. ''Foram os homens que o fizeram para manter suas prerrogativas.''
O que era uma idéia revolucionária, a da opressão masculina, espalhou-se e se firmou. Mas, se a idéia de mulher mudou, assim como as posições que ocupam, pouco se discutiu sobre o homem. Os problemas masculinos não têm nada de vagos. No divórcio, quem (quase sempre) se vê afastado dos filhos é o pai. Nas guerras, são eles que vão para o front. Na violência urbana, homens não são apenas os causadores, são também as principais vítimas. Por conta da dupla jornada, as mulheres ganharam o direito de se aposentar mais cedo. Mas são os homens que morrem antes, assim como se acidentam no serviço muito mais do que as mulheres.
''A vida é só isto?''
As mudanças são reais, mas recentes. Que havia um espírito novo no ar já se percebia, embora de forma muito incipiente, quando ''A Mística Feminina'', de Betty Friedan, chegou às livrarias americanas, em 1963. Bem escrito, fluente, claro, preciso. Friedan escrevia para mulheres de classe média que, à noite, louça lavada, filhos dormindo, marido ao jornal, buscavam aflitas calar a dúvida que as perturbava: ''A vida é só isto?'' Não era - e, para muitas, deixou de ser.
''Mas a transformação que queriam é esta?'' - pergunta o psicólogo e professor Sócrates Nolasco, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Condoleezza Rice é secretária de Estado dos EUA, Margaret Thatcher foi premiê britânica, há executivas espalhando-se pelas empresas. Se o mundo mudou ao aceitá-las com mais frequência, elas não mudaram o mundo. ''As regras continuam as mesmas, a agressividade da vida não mudou, nada ficou mais suave'', teoriza Nolasco, para quem a promessa de que a maior participação de mulheres faça diferença na dureza cotidiana permanece, afinal, uma promessa.
''Hombridade se conquista''
Simone de Beauvoir sugeria que a mulher não nasce mulher - ela é feita mulher de acordo com pressões externas, culturais. ''O abismo que separa o rapaz adolescente da moça foi aumentado deliberadamente desde sua mais tenra infância; as mulheres crescem para que sejam aquilo que fizeram delas.'' Não é que estivesse errada. A pesquisa do antropólogo americano David Gilmore, da Universidade Estadual de Nova York, confirma em campo o que, para Beauvoir, vinha de observação. Só que confirma o oposto também, citando o escritor Norman Mailer: ''Ninguém nasce homem; hombridade se conquista.''
Em quase todas as culturas, desde muito pequenos, os meninos são instados a ''virar homens''. A agressividade é cultivada por pais e mães, um reflexo natural para defender a tribo, para arar a terra, para conquistar a moça bonita. Uma marca cultural profunda, mas não para oprimir o sexo oposto.
''É claro que o homem perdeu com o movimento feminista.'' Quem afirma é Fernando Seffner, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, um dos poucos que, como Nolasco, estudam o lugar do homem. ''Onde antes ele concorria com outros seis sujeitos por um emprego, hoje ele encontra mais dez mulheres na disputa.'' Mas as mulheres também perderam. Territórios que há algumas décadas eram iminentemente masculinos já não são mais. Elas fumam como não fumavam - então passaram a ter câncer de pulmão. Trabalham em escritórios, aguentam pressão pesada, convivem com stress: aumenta o número de infartos. Presentes em novos espaços, estão morrendo mais pela violência das cidades.
''O homem que perde é principalmente o machista, aquele que tem dificuldade de lidar com esta negociação com as mulheres''. Para o professor gaúcho, este é o que bate, o responsável por mais de 80% dos casos de violência doméstica.
Contudo, como lembra Nolasco, ''se continuar o discurso do opressor; se, para discutir o homem, continuarmos sempre vendo pela perspectiva do feminismo, não haverá avanço. Precisamos inaugurar uma nova discussão, não é quem oprime quem. Temos de reinventar a maneira de lidarmos com poder e com trabalho, é isso que oprime. Nisso, as mulheres, quando chegaram ao poder, não mexeram.''

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