Há muito tempo, comerciantes e transeuntes que passam pelo Centro de Curitiba têm o olfato agredido pelo mau cheiro que sobe dos bueiros e das caixas de captação de águas pluviais. O desconforto é tanto que, em alguns pontos do calçadão da Rua XV de Novembro, é comum encontrarmos pedaços de plástico, papelão e madeira cobrindo esses equipamentos para impedir que o odor desagradável suba e espante a freguesia.
  O comerciante Faissal Hamdar, proprietário de um quiosque ao lado do ‘‘bondinho’’ do calçadão da XV, conta que já perdeu as contas de quantas vezes reclamou ao poder público, pedindo medidas para acabar com a fedentina do local. Ele não sabe se foram seus apelos, mas há três meses ele não têm sentido cheiro algum nos bueiros localizados ao lado do seu estabalecimento. ‘‘Antes tinha que tampar todo dia, agora melhorou’’, afirma o comerciante.
  O motivo para a alegria de Faissal e de outros comerciantes do centro da cidade podem ser as medidas recentes tomadas pela prefeitura de Curitiba para diminuir o mau cheiro na região central. Há cerca de três meses, vários bueiros e caixas de captação receberam um sistema de comportas, semelhantes a um sifão, que permite a entrada da água da chuva, mas impede a saída de gases.
  Esse sistema ‘‘corta-cheiro’’, funcionou por um tempo, mas segundo o administrador da Regional da Matriz, Omar Akel Filho, com a jogada de lixo nos bueiros, as portinholas acabam ficando entreabertas e o mau cheiro consegue sair. De acordo com a prefeitura de Curitiba, diariamente são retirados cinco toneladas e entulhos (papel, cigarro, plástico, etc.) dos bueiros e galerias pluviais da cidade.
  Mesmo com esses problemas, o engraxate João de Lima, que há 26 anos atua no espaço conhecido como ‘‘Boca do Brilho’’, no Centro da cidade, afirma que a situação melhorou. ‘‘Antes era ruim, agora parou de feder’’, afirma. A menos de 200 metros dali, a comerciante Luiza Gnicio Ribeiro discorda. ‘‘Se não tampar todo dia fica fedido’’, conta ela diante de um bueiro localizado na frente de sua barraca de caldo de cana, na Praça Osório. Diferente de outros comerciantes do Centro, ela afirma que as medidas contra os odores desagradáveis não surtiram efeito algum. ‘‘É um horror, o cliente cai fora quando tem cheiro ruim’’, reclama.
  Para tentar resolver esse problema, a prefeitura de Curitiba contratou os serviços de uma empresa de tecnologia ambiental para aplicar bactérias especiais nas redes de captação de água pluvial, capazes de ‘‘comer’’ os materiais orgânicos responsáveis pela emissão de gases causadores do mau cheiro. A tecnologia já é usada nos Estados Unidos há 40 anos. No Brasil, ela existe há 10, mas nunca foi aplicada com esta finalidade (veja o box).
  No entanto, José Marcello Silva de Carvalho, um dos proprietários da empresa Águas Puras, responsável pelo serviço, adianta que ‘‘a aplicação tem efeito paliativo’’. Segundo ele, o mau cheiro é causado pelo processo de degradação de materiais orgânicos lançados irregularmente nas galerias pluviais da cidade, que levam a água da chuva aos rios sem passar pela rede de esgoto da Sanepar, onde esses materiais seriam devidamente tratados.
  Os maiores responsáveis pela emissão desses materiais são as ligações de esgoto clandestinas e o despejo de restos de comida e óleo vegetal nos bueiros por lanchonetes e restaurantes do centro da Cidade. ‘‘Esses estabelecimentos dão um ‘tiro no pé’ porque são esses lançamentos que causam o mau cheiro e também causam a proliferação de ratos e baratas’’, conta Omar.

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