Bares formam patrimônio afetivo de Londrina
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domingo, 05 de dezembro de 2004
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Se fosse possível tombar um imóvel como ''patrimônio afetivo'', dezenas de bares criados ao longo dos 70 anos de Londrina teriam sido impedidos de fechar. Cenários de encontros, de começos e fins de amizades, paixões e negócios, de discussões acaloradas ou devaneios solitários, esses recintos marcaram e continuam marcando histórias pessoais. Para uns, patrimônio é o bar famoso do Centro; para outros, o botequim da vila.
Atualmente, de acordo com o cadastro do Imposto Sobre Serviços (ISS) da prefeitura, Londrina tem aproximadamente dois mil bares, que funcionam também como lanchonetes, restaurantes ou mercearias. Nesse meio, a rotatividade é visível: todo mês há portas sendo cerradas, ora para reabrir pouco depois com outro proprietário, ora para dar lugar a um novo tipo de comércio. Difícil dizer o segredo da longevidade de um bar londrinense privilégio de poucos. A declaração de Valdomiro Chammé, 46 anos, proprietário do Bar Valentino, que completou um quarto de século este ano, dá uma idéia do quão subjetivo é o assunto. ''Tem uma mágica no bar que a gente não explica direito. Nem eu sei bem qual é a fórmula, mas é algo que combina duas coisas antagônicas: vanguarda e tradição''.
Basta conversar com meia dúzia de boêmios que moraram em Londrina nas últimas duas décadas para obter uma lista indecorável de bares que outrora foram 'points' mas acabaram se extinguindo: Bar da Costela, Bar do Souza, Tio Mário, Mausoléu, Araucana, Castelinho, Chaplin, Beco, Café Sete, Cantinho, Bon Vivant, Villa Pirata, Rock'n Blues, Clube da Esquina... Este último, um dos mais tradicionais da cidade, veio literalmente abaixo há poucos meses. No seleto grupo dos sobreviventes figuram, entre outros, o Bar da Mocidade (1962), o Bar e Lanchonete Estoril, também conhecido como ''Bar do Português'' (1962), o Bar Vilão (1978), o Valentino (1979) e o Bar Brasil, que ainda conserva os traços externos da art decó desde quando foi construído em 1941.
Já a escalada da violência determinou a perda da ''ingenuidade'' que marcava a vida noturna nos primeiros tempos, quando, segundo moradores antigos da cidade, era possível ir a qualquer lugar a pé no meio da madrugada e não havia criminalidade nos bares e boates. ''Havia bagunça no bar, às vezes, mas era uma bagunça mais civilizada. Ninguém tinha medo de frequentar a noite'', lembra José Aparecido da Silva, 59, balconista do extinto Bar Bonanza, no Centro, nos anos 60.


