Banzai, padre Banki
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de agosto de 2009
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Paiçandu - Há exatos 10 anos, a FOLHA publicava uma matéria curiosa: um padre de 72 organizou o próprio funeral, deixando o caixão encomendado e o túmulo pronto - inclusive com epitáfio. Ele não queria dar trabalho a ninguém quando falecesse.
Hoje, aos 82 anos, padre Ângelo Banki, de Paiçandu (Noroeste), continua vivo, muito bem humorado e, com exceção de um ou outro probleminha, como o diabetes e um traço de mal de Alzheimer, tem boa saúde. Tanto que acabou passando adiante o jazigo para a família de um paroquiano pobre. Agora, tem uma vaguinha reservada no mausoléu da família Banki, no Distrito de Água Boa, distante 11 km de Paiçandu; mas desta vez resolveu deixar o trabalho de finalização do túmulo para os parentes.
Organizar o próprio funeral não é o único feito do padre que completou 50 anos de sacerdócio e 35 anos de dedicação à pequena cidade do Noroeste do Paraná em 2009. Ele garante que foi o primeiro sacerdote a rezar uma missa no topo do Monte Fuji, o mais alto do Japão, com 3,7 mil metros. De quebra, deixou por lá uma imagem de bronze da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida.
''Isso foi em 1954. Sempre gostei de alpinismo e decidi que queria escalar o monte que é considerado sagrado para os japoneses. Chamei dois colegas padres, que me ajudaram a levar todos os paramentos para celebrar um missa, e subimos, a pé. Foi muito difícil, pois do meio do caminho para frente, quando vai chegando no alto, além de belos templos budistas, só há pedras, nada de vegetação. O ar fica rarefeito. Gastamos 24 horas para fazer toda a subida. Celebrar uma missa lá no alto foi muito emocionante. Gostei tanto que voltei outras duas vezes. É lindo. Quando o sol aparece, no amanhecer, todos que estão no topo gritam banzai!'', descreve Banki.
O banzai - que em japonês significa viva - o padre 'importou' para Paiçandu depois de sua temporada japonesa. Aqueles que frequentam uma das três missas semanais que ele celebra se divertem ao responder aos banzais que o sacerdote ecoa em seus sermões. ''Celebro com muita alegria, pois o brasileiro é alegre por natureza'', explica.
Nascido em Santa Cruz do Rio Pardo (SP), Banki é o sétimo de 10 filhos de um casal que deixou Hiroshima para desembarcar no Brasil em 1914, apenas seis anos depois dos primeiros imigrantes nipônicos chegarem ao país. Logo, a família que chegou a enfrentar a fome, primeira realidade dos imigrantes orientais que sonhavam em ganhar dinheiro rápido e voltar para a terra natal, converteram-se ao catolicismo.
E o menino Ângelo, aos 10 anos, não teve dúvidas quando o pai lhe perguntou se não queria ser padre. Rapidamente disse sim e pela primeira vez calçou um par de sapatos para ir estudar na capital. Mais tarde, já adolescente foi estudar no Rio de Janeiro e ganhou uma bolsa de estudos dos padres Jesuítas para cursar Teologia no Japão, onde acabou concluindo os estudos e foi ordenado sacerdote.
Em 1974, convidado pelo arcebispo de Maringá, chegou ao Noroeste Paranaense, região para a qual seus pais já haviam migrado quando Banki estava no seminário. ''Deixaram São Paulo e vieram plantar café na terra vermelha, como muitos e muitos japoneses fizeram'', comenta.
Assim como os imigrantes, o padre criou raízes na região. Dinâmico, fundou escolas, levantou igrejas e foi também professor. Recorda que chegava a celebrar sete missas por dia e desanda a rir para recordar de uma de suas aventuras. ''Eu andava muito pela zona rural, visitando as famílias. Um dia cheguei a um sítio e o dono de uma casa humilde me recebeu com muita alegria. Nenhum padre estivera por ali antes. Ofereceu uma carne saborosa. Quando terminei, perguntei de que tipo era. Gambá, foi a reposta. Voltei para casa passando mal''.
Desfalecimento
Melhor do que essa, só a história da ''nota de desfalecimento''. ''Fiz uma torre e instalei alto-falantes no alto da igreja para dar recados ao povo. O alcance do som era de quatro quilômetros. Certa vez, vieram me avisar que um homem tinha morrido. Imediatamente, liguei o microfone e exclamei a nota de falecimento. Pouco depois, vieram dizer que o homem não tinha morrido, apenas estava mal. Não tive dúvidas, fiz uma nota de desfalecimento''.
Corintiano - seu maior defeito ou virtude dependendo do ponto de vista - padre Banki acorda religiosamente às 4h30 para fazer caminhadas e não esconde que gostaria de demorar pelo menos mais uma década para utilizar o túmulo que tem à disposição.


