Domingo à tarde. Pátio do Museu Oscar Niemeyer. Entre os grupos que se reunem para dançar ou cantar por ali, uma garotada chama a atenção pelo inusitado. Seus passos e movimentos, à primeira vista desajeitados, logo revelam uma habilidade adquirida só com muita prática. Não demora muito e aparecem turistas para filmá-los.
Eles mesmos registram tudo com as câmeras de seus celulares. Horas depois, o material já estará disponível na internet, junto com milhares de outros vídeos semelhantes. Porque a nova cultura da dança de rua é assim: balançou, gravou, postou.
Mas não apenas por vaidade, para aparecer. Divulgar e ensinar são as palavras de ordem de um movimento que não para de crescer mundo afora. O nome da tribo? Difícil dizer.
Uns se dizem adeptos do estilo Melbourne Shuffle, surgido nas periferias australianas. Outros, do Jumpstyle europeu. Sem contar as inúmeras vertentes que só os iniciados sabem distinguir (hardjump, tekstyle, starstyle, rebolation, oldschool, etc.).
Em comum, há o gosto pelo hardstyle, subgênero da música eletrônica baseado na dance music de FM, porém mais pesado, acelerado e barulhento. Uma espécie de ''poperô fim dos tempos'', praticamente sem vocais e totalmente forjado em computadores caseiros. A trilha sonora de um futuro que já chegou.
De acordo com os sites especializados, o Melbourne Shuffle tem como movimento principal o ''running man'', que faz o dançarino aparentemente deslizar pelo chão. Já o Jumpstyle se assemelha ao esporte, com passos que misturam chutes e pulos. Nos dois casos, o praticante parte dos conceitos essenciais para criar seu próprio estilo.
Essa liberdade não se restringe apenas ao corpo. Dançar em qualquer lugar é o grande barato da tribo, que adora mostrar e registrar suas habilidades em shoppings, museus, praças, pátios de escolas e outros lugares públicos. ''Se aparecer algum curioso olhando no meio do vídeo, fica ainda mais divertido'', diz Myia (nome de guerra), um dos principais agitadores da cultura por aqui.
Myia é o criador do DFH (Dancers From Hell), grupo de Melbourne Shuffle que conta com integrantes de vários Estados - o que reforça o caráter virtual da cena. Aos 17 anos, ele é o mais velho entre os garotos presentes no ''meet up'' (encontro) do último domingo. Todos vindos de bairros afastados do centro e, em sua maioria, estudantes de colégios públicos.
Eles contam que a trajetória na dança quase sempre começa em casa, no computador. Um amigo indica um clipe para o outro e a corrente vai aumentando. Nesse sentido, os tutorais - vídeos didáticos produzidos pelos mais experientes - são fundamentais para a disseminação da cultura. ''Aprendi muito com pessoas que eu nem conheço pessoalmente'', afirma Shin, da DFH.
Motivados pela possibilidade de se expressar sem precisar de muitos recursos, os novatos treinam com afinco até se sentirem aptos a gravar o primeiro clipe. Se a performance for realmente boa, corre o mundo via YouTube, Orkut, MSN e afins. Tudo meio ''viral'', como se diz atualmente.
Comparada a São Paulo, onde já existem grandes eventos do gênero, Curitiba ainda engantinha. Mas os rapazes (são raras as meninas envolvidas) levam tudo muito a sério, como um estilo de vida. Os membros da DFH, por exemplo, fazem questão de usar camisetas próprias e as típicas ''phat pants'' - calças largas, para esconder os pés, e com detalhes fluorescentes.
De visual mais livre, os fãs do Jumpstyle também se reunem em grupos. Rafajumpen lidera o High Jumpers, com 18 participantes espalhados pelo Brasil. As associações, no entanto, podem extrapolar as fronteiras territoriais. ''Há um tipo de vídeo, o 'feat', em que aparecem dançarinos de países diferentes. Cada um manda sua parte, alguém edita e coloca na rede'', explica.
Ao contrário do hip-hop, cujo discurso guarda uma mensagem''positiva'', o hardstyle sequer traz letras inteligíveis. Os adeptos, no entanto, rejeitam a pecha de alienados. ''A gente dança para se expressar'', diz Shin. ''É uma linguagem física. Algumas vezes, você dança para tirar o estresse. Em outras, porque está muito feliz'', completa Dgé, da High Jumpers.
Obviamente, nenhum deles leu Nietzsche. Mas concordariam em gênero, número e grau com a frase do mestre: ''Um dia sem dançar é um dia perdido''.

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