''Posso ficar devendo um centavo?'', perguntou a moça do caixa do supermercado, naquele discurso automático. ''Não'', respondeu calmamente a senhora, apoiada na bengala e tentando ficar na ponta dos pés para conferir mais de perto o monitor do caixa, que mostrava o saldo final das compras.
''É que eu não tenho moeda de um centavo para dar o troco, desculpe''. ''Então por que o preço do condicionador é 5,99, se vocês não vão ter troco?'', insistiu a senhora, com o carrinho cheio das compras do mês. As pessoas que estavam na fila, ao invés de mostrarem impaciência, pareciam se interessar pelo 'embate' e apoiar a compradora.
A moça do caixa ofereceu balinhas de troco, em mais uma tentativa de negociação. ''Meu médico não me deixa comer balas. Não posso comer doces'', respondeu a velhinha, deixando claro que não arredaria pé dali sem seu troco correto.
A moça, preocupada com uma provável reação hostil do pessoal da fila, chamou outra funcionária para achar um centavo de troco. Demorou, mas finalmente veio a tal moeda de um centavo.
Um rapaz - que era o cliente seguinte a ser atendido - não se conteve e perguntou para a funcionária do supermercado: ''Você sabe quanto este mercado deve ganhar por mês com os bobos que não exigem troco?'' A moça deu um sorriso amarelo e respondeu que não sabia. ''E se eu pedir para ficar devendo um centavo, vocês vão me deixar ir embora com as compras ou aquele segurança vai me parar na porta?'', emendou, empolgado.
A outra funcionária foi embora, salva 'pelo gongo' de outro caixa que solicitava dinheiro trocado. A moça do caixa começou a passar as compras dele e o rapaz encerrou a conversa por ali.
Mas a pergunta ficou no ar. Mercados, farmácias, padarias e lojas obviamente têm lucro extra quando ficam devendo um centavo que seja para os clientes. A maioria opta pelo conformismo, seja para não perder tempo ou energia numa exigência por poucos trocados. As pessoas deixam passar, assim como pagam sem contestar impostos de valores altos, que os governos cobram para oferecer serviços de péssima qualidade - e sem doce de troco...

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