Bairros dominados pelo medo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de junho de 2007
Luciana Pombo<br>Equipe da Folha 
Bairros dominados pelo medo. Famílias que se trancam dentro de casa e aguardam, a qualquer momento, o início de um tiroteio entre turmas rivais. A periferia de Curitiba é a mais dominada pelos grupos de adolescentes que disputam espaço. Mas os bairros considerados como de elite também são vítimas da violência produzida pelos integrantes dos bandos. Ali, nenhum estranho pode entrar. Um desconhecido pode ser espancado sem ter feito nada para chamar atenção.
A FOLHA localizou um dos integrantes dos bandos que atuam em Curitiba. Gabriel, nome fictício, tem 16 anos e é um dos integrantes da turma do Campina do Siqueira. Ele concordou em falar com a reportagem desde que não fosse identificado. Praticamente todos os dias, Gabriel se encontra com os manos (eles se chamam desta forma). Os programas nem sempre são definidos previamente. A maioria do grupo anda armada. A intenção é sempre fumar uns bag (maconha) e tomar uns goró (bebida alcoólica). A gente se encontra assim. Marca e vai. Todo mundo anda junto e se encontra para fumar uns bag e tomar uns goró. Sempre acaba dando briga, relatou.
Gabriel contou que um dia encontraram um rapaz diferente e que estava sozinho no Terminal do Campina do Siqueira. O líder (cuja identidade é sempre omitida) perguntou de que bairro ele era. A resposta: do Boqueirão. Foi o que bastou para que começasse a apanhar. Todo mundo deu uma bicuda nele. Ele estava sozinho. Então não apanhou muito. Não é normal sair batendo nos piá por aí. Mas isso acontece freqüentemente, confessou. O grupo é formado por uns 200 adolescentes com idades entre 14 e 23 anos. Eles são dos bairros Campina do Siqueira, Campo Comprido e Cidade Industrial. Os encontros básicos são programados para sexta-feira (Praça Ucrânia), sábado (Santa Felicidade) e domingo (Parque Barigüi).
A gente se encontra e bebe muito. Geralmente à noite. A gente brinca, mexe com as meninas, relatou. Na turma, o líder é o traficante. Ele protege os meninos e é defendido por todos eles. Ele é que vende a droga para gente. Se a gente quiser vender, tem que comprar dele. Se a gente vende de outro, tá fu... Mas só trabalha vendendo quem quer, garantiu Gabriel. A maioria do grupo fuma maconha e vende cocaína (até para sustentar o vício). Gabriel mesmo já vendeu a droga, mas resolveu parar. Eu tive que pagar a dívida que tinha e saí da venda. Se a gente paga, pode sair a qualquer hora. Se não paga, pode até ser morto, explicou.
Gabriel contou que viu um dia um colega sendo morto na rodinha por dívida de drogas. A gente estava numa rodinha. O garoto estava fumando um bag. O líder falou: você está me devendo, cara. Ele disse que não, que não devia nada. O líder repetiu: você está me devendo, cara. Ele voltou a dizer que não. Na terceira negativa, ele pegou a arma e atirou no cara. Na nossa frente.
Nos encontros com o líder, ninguém pode ir armado. Ele sempre dá uma geral nos meninos para evitar enfrentamentos. O código dentro da turma é nunca dedurar, mesmo se for preso. Um dia um amigo nosso foi preso com droga e dedou todo mundo. Depois que ele foi solto, o líder foi atrás dele. Não sei o que aconteceu. O que eu sei é que ninguém mais ouviu falar no cara. A gente acha que ele foi morto, afirmou.
Gabriel tem família. É da elite curitibana. Abandonou os estudos na 5ªsérie do ensino fundamental e é sustentado pelos pais.


