Mais de dez tradições populares já receberam o título de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, criado pelo governo em 2000 para preservar formas de expressão ancestrais. A lista conta com algumas manifestações conhecidas do grande público (como o frevo pernambucano) e outras que ainda não ganharam reconhecimento fora de suas regiões (caso da viola-de-cocho do Mato Grosso).
Nesses oito anos, ninguém contestou a importância do Círio de Nazaré ou do Samba de Roda do Recôncavo Baiano, costumes que também receberam o diploma. Mas, em abril, a deputada federal Perpétua Almeida (PCdoB-AC) colocou o registro em evidência ao pedir a inclusão do chá ayahuasca, mais conhecido como santo-daime.
Produzida a partir da fervura de duas plantas amazônicas - o cipó de jagube e as folhas da chacrona -, a bebida contém DMT, um elemento tóxico e psicoativo que pode causar alucinações. A Secretaria Nacional Anti-Drogas permite sua utilização, porém restrita a ambientes religiosos. Até aí, nenhum motivo para polêmica. Não fosse o fato de que os rituais ayahuasqueiros têm se proliferado pelos centros urbanos nos últimos anos.
Estima-se que 20 mil brasileiros são adeptos das três religiões sincréticas calcadas no uso da substância: Santo Daime, União do Vegetal (UDV) e Barquinha. Esse número, no entanto, pode dobrar quando entram na conta os centenas de grupos independentes espalhados pelo Brasil.
Só em Curitiba existem, pelo menos, dez deles. Do novato Centro Universalista Mãe Terra (CEUMT), com cerca de 15 frequentadores, ao consolidado Instituto Ayahuasca, cujo espaço costuma receber até 60 pessoas por sessão. Sem contar iniciativas isoladas, promovidas em círculos restritos de amigos.
O psicólogo Fernandes Ribeiro, 38, foi praticante de uma religião ayahuasqueira (que prefere não identificar) durante 18 anos. Insatisfeito com a expansão da instituição, desvinculou-se e, há poucos meses, fundou o CEUMT. "A coisa ficou tão grande que inviabilizou aquele contato original, essencial. Quanto mais gente envolvida, mais regras devem ser criadas para controlar o sistema", diz.
Ribeiro afirma que a popularização dos grandes cultos não é a única motivação para a formação dos sistemas independentes. De acordo com ele, há quem simplesmente não se identifique com a simbologia e os dogmas do Daime e seus congêneres - que podem contar com danças, hinos e o uso de vestimentas específicas, entre outras obrigatoriedades.
Enquanto os encontros do CEUMT ainda ocorrem na casa de Ribeiro, o Instituto Ayahuasca está em um estágio mais avançado. Criado há três anos, tem como sede o centro de terapias alternativas comandado por seu fundador, o acupunturista Fernando Cracco, 43. Trata-se de uma instituição legalizada e sem fins lucrativos, que inclusive mantém um cadastro formal de seus freqüentadores. "Está tudo aqui, à disposição da Polícia Federal", diz Cracco, mostrando uma pasta lotada de fichas.
O terapeuta conta que teve sua primeira experiência com ayahuasca há cinco anos, orientado por um "mestre" de origem peruana. "Cada grupo tem seu sistema. O nosso é baseado nas tradições maias e astecas", afirma. Ainda assim, Cracco acredita que os independentes formam, na verdade, um único e grande grupo, marcado pela ajuda mútua.
Essa cooperação, ele explica, inclui a circulação do chá. O problema não é exatamente o preço (em torno de R$ 80 o litro), e sim a dificuldade para consegui-lo. "Já sofremos muito por falta da ayahuasca, por isso temos o projeto de iniciar uma produção própria", revela o terapeuta, que muitas vezes fala da bebida como se ela tivesse vida.
Sobre a possibilidade de criar "franquias" do instituto, Cracco não titubeia: "Nem pensar! Isso vai contra a nossa proposta". Sua meta, no entanto, é organizar um espaço com capacidade para 400 pessoas. "Mas isso não fui eu que defini. Foi o ayahuasca que me passou", garante. (Continua na página 3.)

mockup