Aya Ono viveu história contada em filme
Em uma entrevista concedida recentemente a uma TV de Londrina, Aya Ono a dona ''Iaiá'', como ela gosta de ser chamada explicou o sucesso no trabalho no filme ''Gaijin - Ama-me como Sou'' de uma forma muito simples. Para ela, não havia segredos em interpretar uma antiga imigrante japonesa, já que aquela era uma história que ela havia, de fato, vivido.
Quem conversa com a doce senhora de 77 anos e ouve as histórias que ela tem para contar descobre, no entanto, um outro segredo. Dona Iaiá não mentiu quando afirmou que viveu a história contada no filme e relembra tudo com tanta disposição e simpatia que é impossível não se emocionar.
Os pais de dona Iaiá foram uma das 100 famílias de japoneses a deixar o país natal, nos anos 1930, para tentar a sorte no Brasil, embalados pela propaganda promovida pelo governo japonês. O país da América do Sul era pintado para os japoneses recém-saídos da crise promovida pela Guerra Sino-Japonesa como a terra das oportunidades. ''Diziam que iríamos ficar ricos em 10 anos'', conta.
Na época com apenas 5 anos, Iaiá lembra-se claramente do sofrimento pelo qual a mãe passou na nova terra. ''Chegamos a Cafelândia (interior paulista) para trabalhar em lavouras de café. Minha mãe chorava todos os dias por não ter legumes para comer, como fazia no Japão'', conta. ''Ela teve que aprender a comer até folha de batata para matar a fome'', continua.
A empreitada em São Paulo não durou muito tempo. Já desanimados com as poucas perspectivas de renda, os pais de dona Iaiá logo perceberam que o Paraná seria uma terra mais receptiva aos imigrantes. ''Saímos de Cafelândia seis anos depois, por causa da malária. Meus pais ficaram com muito medo, a febre era muito alta e forte'', lembra.
A chegada no Paraná deu-se em Sabáudia (65 km a Oeste de Londrina), onde a família Ono se instalou num pequeno pedaço de terra para o plantio de algodão, café, arroz, feijão e milho. Sete anos depois, Iaiá mudava-se para Londrina, seduzida pelas notícias que o pai trazia para casa. Na cidade, ela casou-se e vive até hoje no mesmo lugar. ''Antes aqui era muito feio, só tinha mato. Agora está bem cuidado, planto flores e tenho uma horta. O que eu planto eu dou para os vizinhos'', diz.
Sete décadas vividas no Brasil ainda não foram suficientes para que dona Iaiá se livrasse do carregadíssimo sotaque japonês, uma mostra das dificuldades que os japoneses enfrentaram para a adaptação ao Brasil. ''Aprendi português na marra. Tinha que falar para vender legumes e fazer 'tutu' (dinheiro)'', brinca.
Em 2000, dona Iaiá ganhou o direito de se aposentar. Agora, segundo ela própria, há tempo suficiente para visitar os filhos, principal motivo para o forte vínculo que a atriz tem hoje com o Brasil. ''Aqui tem muita violência, mas ao mesmo tempo eu gosto muito do feijão, da feijoada. Meus filhos nasceram aqui, moram aqui. Lembro-me de brincar na neve, no Japão, com meus irmãos, e às vezes, sinto falta. Mas só volto se meus filhos forem junto. Além do mais, comprei minha terra com muito sofrimento''.(A.M.)





