O que têm em comum as cidades de Orlando, na Flórida (Estados Unidos), e Campina Grande do Sul, na Região Metropolitana de Curitiba? A primeira é a terra do Mickey Mouse, onde estão localizados os parques da Disney World, a segunda é conhecida pela Festa do Caqui e pelos diversos pesque-pagues que existem na região. Nenhuma relação entre elas a não ser no mapa dos empresários Valdecir Tecchio e Alessandro Victorelli, onde estão, respectivamente, no início e no fim do roteiro de uma viagem que eles realizaram de carro no início deste ano.
A aventura, intitulada Expedição Panamericana 2009, durou 44 dias e percorreu 14 países (dois na América do Norte, seis na América Central e seis na América do Sul). Os aventureiros, que residem nos EUA, partiram de Orlando no dia 7 de janeiro e cruzaram a aduana do Brasil em 17 de fevereiro. Depois de deixar Alessandro em Londrina, Tecchio chegou a Campina Grande do Sul em 20 de Fevereiro, onde foi recebido com festa por amigos e familiares.
Foram 18 mil quilômetros rodados e 3.600 litros de gasolina consumidos. Tamanho gasto se deve ao baixo rendimento do veículo escolhido para a empreitada, um Volkswagen Touareg (sem fabricação no Brasil), que tem entre seus atributos a grande potência (tração 4x4) e o baixo rendimento: roda, em média, apenas 5 quilômetros por litro.
Ao todo a dupla gastou nessa viagem U$ 24 mil, incluindo aí a compra do automóvel, que será vendido quando retornar (de navio) aos EUA.
Conforme a viagem avançava, os aventureiros iam registrando as várias facetas da América em fotos e relatos que eram publicados diariamente em um blog, que acabou servindo também como veículo de comunicação com seus familiares, já que na grande maioria dos países latino-americanos, os celulares da dupla ficaram sem sinal.
Apesar das dimensões continentais da viagem, que poderia reservar imprevistos perigosos aos viajantes, Tecchio conta que tudo ocorreu dentro de uma surpreendente normalidade. "Em nenhuma situação nos sentimos ameaçados", diz, nem mesmo quando foram achacados pela polícia em Honduras, quando quase ficaram sem hotel no Panamá, ou quando precisaram despachar o carro de contêiner devido a falta de vias de acesso na América Central. Em várias situações eles puderam contar com uma característica comum a todos os países latino-americanos: a solidariedade de seus habitantes. "Você chega até a desconfiar", diz Tecchio referindo-se à acolhida do povo Colombiano, que ele considerou o mais receptivo de todos.
Ao longo do trajeto algumas adequações de ordem prática precisaram ser feitas. A idéia inicial de visitar Macchu Picchu, no Peru, foi descartada pela distância, também o plano de descer até Buenos Aires, na Argentina e subir para o Brasil através do Uruguai ficou de fora, pois aumentaria a viagem em 4 mil quilômetros. Ao invés disso optou-se por percorrer o deserto do Atacama, no Chile.
O planejamento da viagem começou meses antes e exigiu dedicação exclusiva nos últimos 30 dias. Já o sonho da aventura é antigo, Tecchio conta que durante anos adiou a empreitada por falta de companhia. "De repente, no ano passado apareceu o Alessandro e topou", conta ele, que já tem em mente sua próxima empreitada, percorrer a rodovia transiberiana no continente asiático.


- Dicas para uma aventura de carro:• Não reserve hotel com antecedência, é muito melhor escolher na hora.
• Utilize carro a diesel, além do combustível ser mais barato, a qualidade da gasolina varia muito entre os países.
• Prefira mapas a GPS, esses equipamentos funcionam bem apenas em alguns países.
• Escolha celulares que tem operadoras na maioria dos países a percorrer para não ficar incomunicável.
• Viaje entre janeiro e fevereiro, em 44 dias os viajantes pegaram somente duas chuvas.
Fonte: Valdecir Tecchio


Diferenças políticas e culturais
Nos últimos quatro anos o idealizador da viagem de carro pelas américas, Valdecir Tecchio, estudou Ciências Políticas na Universidade Central da Flórida, especializando-se em estudos da América Latina. Com isso, a viagem realizada por ele e pelo amigo Alessandro Victorelli ganhou ares de expedição científica. "Andando por tudo, abastecendo, você consegue ter uma visão bem mais ampla (do aspecto político) do que fazendo turismo.", avalia.
Parte dessa observação ocorria toda vez que os viajantes precisavam atravessar uma fronteira e realizar os trâmites aduaneiros referentes ao ingresso do veículo no país. Esse tipo de vivência, segundo Tecchio, ajuda a traçar um perfil socio político de cada lugar. Em alguns, como Honduras, Costa Rica e Peru, as autoridades tentaram levar vantagens sobre os viajantes, já em outros, como a Colômbia, a receptividade deixou marcas positivas. "O que identifica o latino é o espírito de solidariedade", avalia.
Culturalmente verificou-se também uma grande diversidade. Bastava ultrapassar os limites de um país para encontrar um cenário totalmente diferente. "Não muda só a fisionomia das pessoas, muda tudo, a cultura, a comida", diz. Segundo ele, até chegar à Colômbia não se encontra pão, apenas tortilhas, prova da influência da culinária mexicana. Um dos únicos pontos de convergência entre tão diferentes povos é a paixão pelo futebol.
Sempre que tinham oportunidade os aventureiros questionavam os moradores locais sobre os aspectos políticos de cada país. Na Costa Rica chegaram a conhecer um futuro candidato à presidência. Na avaliação de Tecchio, o Brasil é muito bem visto em todos os lugares por onde passaram. "É considerado um ‘império do bem"’, diz ele, diferente dos Estados Unidos que são mal vistos pela maioria dos latino-americanos. A conclusão que ele tirou dessas observações é que a integração política e econômica dos países latino-americanos "seria a única forma de desenvolver o continente conjuntamente".
Dentre alguns fatos que surpreenderam os aventureiros foi a pujança econômica da Guatemala e do Panamá e a pobreza encontra no Peru. Outro fato que chamou a atenção foi o preço da gasolina. Mesmo auto-suficiente na produção de petróleo, o Brasil foi o país que apresentou o preço mais salgado. Na outra ponta estava o Equador, onde o combustível foi o mais barato encontrado. (A.A.)

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