Aventura era rotina para os pioneiros
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sábado, 24 de julho de 2004
Fernando Rocha Faro<br>Reportagem Local 
O crescimento das empresas de turismo de aventura é uma novidade no cenário londrinense. Mas, para os pioneiros e desbravadores de Londrina e outras localidades do Norte do Paraná nos anos 1930, as peripécias para abrir espaço na mata fechada faziam parte da rotina dos primeiros migrantes e imigrantes a chegarem na região. A maioria das árvores foram derrubadas pelos funcionários da Companhia de Terras Norte do Paraná que, com a comercialização dos lotes, foi agente determinante da colonização de Londrina.
O potencial de crescimento da pequena cidade atraiu o corretor de terras Henrique Massi, que veio em 1934 de Sertanópolis para aproveitar o mercado promissor do local. Um dos 14 filhos do pioneiro Massi, o serralheiro aposentado Elpidio, 82 anos, acompanhou de perto o desbravamento da cidade, apesar de ser novo para trabalhar na derrubada de árvores. ''Me lembro da época. Eram os funcionários da companhia que derrubavam as árvores. Antes era mais complicado e mais duro para derrubar as árvores. Era só no machado e na serra trançadora'', relata Elpidio Massi. ''Acho que não tem mais ninguém que trabalhou na derruba vivo'', acrescenta.
A casa da família, na Vila Matos, ainda era cercada por mata fechada. O pai Henrique e Francisco, um dos irmãos mais velhos, chegaram a derrubar somente algumas árvores ao redor da casa. Segundo Massi, foi necessária uma requisição junto à companhia para cortar uma árvore que ameaçava cair sobre a sua casa. O serviço do jovem Elpídio era amarrar as ripas. Depois, trabalhou na Serraria Mortari, a maior e mais tradicional das sete empresas do ramo na cidade, entre os anos de 1936 a 1940.
Enquanto acompanhava os trabalhadores da companhia, Elpídio Massi e sua turma de parentes e amigos aproveitava a infância. A exemplo da juventude atual de Londrina, os esportes eram o principal passatempo. Os dois preferidos eram o futebol e as caçadas de estilingue. ''Tinha muito pica-pau, tiriva, tico-tico'', enumera. A aventura acontecia nos bosques da própria Vila Casoni, bairro vizinho. ''Minha vida era treinar com o estilingue, em uma latinha de massa de tomate'', conta. Somente em 1941, aos 19 anos, desistiu do ''esporte de aventura.'' ''Até hoje guardo a forquilha deste último estilingue'', salienta.
Outra paixão da turma era o futebol. Orgulhoso, Elpídio Massi conta que foi por uma iniciativa desbravadora de seus companheiros de bola que teve origem a mais tradicional praça de esportes de Londrina, o Estádio Vitorino Gonçalves Dias, também na Vila Matos, na Área Central da cidade. Em 1938, Massi e os companheiros de time, em busca de um lugar para fazer um campo de futebol, abriram uma clareira numa roça de algodão. A Serraria Mortari forneceu madeira para as traves e pó de serra para cobrir a terra.
Elpídio Massi lembra, um por um, o nome dos companheiros de facão, enxada e chuteira: João Hugo Massi, Ramon, João e José Garcia Ortiz, Antonio Mazzei, Amadeu e Reinaldo Rossignoli, Clemente Mazer, Alceu, Antonio Roque e Demerval Mortari.
A alegria do grupo, no entanto, durou pouco. Após um tempo, ''a turma do Mortari invadiu o campo e ampliou-o, colocou na medida oficial e acabou com o nosso time. Só eu e mais um podíamos jogar, porque eramos maiores e mais troncudos. Os outros, eles não deixavam jogar'', rememora. Após alguns anos, a prefeitura construiu no local o Estádio Vitorino Gonçalves Dias.
Ao passo que a turma de Massi praticava o futebol, os ingleses jogavam tênis, em uma quadra em frente à atual Catedral. A diversão de Elpídio Massi e dois amigos era ficar do lado de fora, esperarando para ''pegar algumas bolinhas.'' ''Quando a bolinha caía fora, a gente pegava e pernas para quem tem. Éramos em três pilantras'', gargalha. ''Depois, os ingleses colocaram um moleque para ficar de guarda mas não adiantou. Demos uma surra nele e continuamos roubando as bolinhas. Somente quando puseram um homem de guarda e que acabou a festa'', relembra Elpídio Massi, com o espírito de aventura ainda vivo. Pelo menos, na memória.


