‘‘Plantation’’. Pouca gente sabe o significado dessa palavra inglesa, mas pelo menos 1 milhão de paranaenses seriam vítimas desse regime agrícola na década de 70. Difundido pelos Estados Unidos, ele significa a destinação de grandes áreas para monoculturas de exportação. No caso paranaense, a ‘‘plantation’’ foi a soja.
Cultura inexpressiva até os anos 50, a soja ganha terreno em proporções geométricas nas décadas seguintes. Em apenas 20 anos (de 1952 a 1972), a produção salta de 43 toneladas anuais para 1,5 milhão de toneladas. Em 1974, a cultura já abocanha 34,2% da área do Estado aproveitada para a agricultura. Começa no Oeste e logo estende seus braços verdes para o Sudoeste, o Centro, o Noroeste e até o Norte do Estado, onde tomaria as áreas do café, que entrava em processo de erradicação em decorrência da queda da produtiviade e da grande geada de 1975.
As consequências desse fenômeno agrícola seriam devastadoras no campo social. Cultura que exige grandes áreas planas, a soja, à medida que se expande, vai tomando terreno de culturas de subsistência, pomares, áreas destinadas a pequenas criações, pequenas vilas rurais.
A soja exige mecanização e alta tecnologia agrícola: tratores, colheitadeiras, equipamentos, adubos e venenos caros. Modernidades inacessíveis ao pequeno agricultor. Por outro lado, as máquinas tomam o lugar dos empregados e meeiros nas fazendas. O café, ‘‘plantation’’ anterior, empregava grandes contingentes. O resultado é o maior êxodo rural da história do Estado. Na década de 70, cerca de 100 mil pequenas propriedades do Estado são engolidas pelo latifúndio. Um milhão de pessoas deixam o campo.
Desse total, metade se transfere para as cidades do Paraná e o restante vai para outros Estados e até para o exterior. Os que ficam, ajudam a inchar as cidades –grandes, médias e até pequenas–, sitiadas por cinturões de favelas. Desqualificados para o trabalho urbano, voltam para o campo, agora como bóias-frias nas culturas de soja, algodão e cana-de-açúcar.
O termo deriva da condição alimentar do trabalhador: almoça na lavoura uma refeição preparada na madrugada ou na noite anterior. No final dos anos 80, o Paraná chegaria a ter 800 mil bóias-frias. Sem direito a assistência médica, férias ou aposentadoria, o bóia-fria só tem pagamento em alguns meses do ano.
Das vítimas do êxodo rural que deixariam o Estado, metade migra para São Paulo e a outra parte se muda para o Norte e o Centro-Oeste do País, em busca das últimas fronteiras agrícolas. Outra leva deixa o Brasil para buscar a sorte no Paraguai. Entre 1975 e 1980, 400 mil brasileiros –a maioria paranaenses– virariam brasiguaios. Quinze anos depois, eles estão voltando, vítimas do mesmo processo econômico que os expulsou do Brasil
No campo econômico, o ciclo da soja faz surgir as grandes cooperativas agrícolas no Estado e fomenta a agroindustrialização. Os pólos regionais do interior, principalmente Ponta Grossa, se tornam núcleos de indústrias moageiras de soja.

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