Na contraluz da palavra ''tolerância'', a belicosa convivência entre temas como criacionismo e evolucionismo no ensino religioso aparecem como uma discussão da Idade Média. A pós-modernidade, que acentuou ainda mais o cisma e o fundamentalismo do Ocidente e Oriente, também está transformando a antiga aula de Religião em uma disciplina considerada do futuro.
Para enfrentar esse desafio, as aulas ganharam novos campos de exposição, incluindo o cinema, como aconteceu com os alunos do Colégio Marista que, depois de assistirem ao filme ''O Código da Vinci'', participaram de um debate sobre o assunto.
Regulamentado pelo Conselho Estadual de Educação, em 2000, o ensino religioso nas escolas paranaenses exige que os professores apresentem temas como o transcendente, ethos, culturas e tradições religiosas, entre outros.
O professor de Pastoral e de Fundamentos Epistemológicos do Ensino Religioso da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Curitiba), Mário Antonio Betiato, autor do livro ''Navegando nos Caminhos da Fé'' (Editora Loyola) não gosta de ver o mundo, que compreende as religiões, acabar no abismo do proselitismo.
''É preciso estudar o fenômeno religioso desde a pré-história até a pós-modernidade, pegando os mitos, ritos sagrados, os escritos, as tradições orientais, o monoteísmo ocidental e sua influência no comportamento humano. Também é preciso abordar o pluralismo religioso, o fundamentalismo e as implicações no comportamento pós-moderno'', comenta Betiato.
Ao hastear a bandeira da tolerância em sala de aula, esse conteúdo fortalece a convivência pacífica dos estudantes em relação a outras diferenças, sejam sexuais, sociais ou étnicas.
As 81 escolas da rede municipal oferecem o ensino religioso; nas 72 instituições estaduais, a disciplina é dada em 42 escolas.
Nas duas redes de ensino, as aulas obedecem a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), contando com grande participação dos alunos, sendo que nas escolas estaduais, a disciplina vai até a 6 série.
A coordenadora do ensino religioso do Núcleo Regional de Educação (NRE), Angélica Gonçalves Gonzaga, lembra que, este ano, apenas os pais de um aluno de Cambé não quiseram que o filho participasse das aulas, alegando que a crença deles não permitia contato com outros credos.
Afastando a discussão religiosa do conhecimento científico, que volta e meia faz fumaça para avisar que ainda existe uma guerra dos mundos, Angélica diz que a preocupação maior deve ser cultural.
''Trabalhamos fenômenos religiosos nas primeiras séries e deixamos os assuntos mais complexos para quando os alunos estiverem no ensino médio. Falamos em fé, mas não de uma maneira profunda. Porém, é comum as crianças questionarem os professores sobre criacionismo e evolucionismo. Aí a professora dá as suas explicações, mas não podemos puxar para uma ou outra idéia religiosa'', destaca Angélica, afirmando que os alunos que não querem participar da aula, podem fazer alguma atividade alternativa, já que os estudantes não são submetidos a uma prova de avaliação.
Betiato não derruba do altar a Teologia e nem rasga as páginas da tradição científica ao deixar de considerá-las personagens principais da discussão sobre aula de Religião.
''Um problema é a formação profissional. O Ministério da Educação e Cultura (MEC) não autoriza formar profissionais nessa área, apesar da LDB garantir o ensino de religião nas escolas. As aulas deveriam ser ministradas por pedagogos e não teólogos, porque toda teologia é confessional, existindo uma teologia cristã, islâmica, budista, judaica. Ensino de Religião está mais para a área de Pedagogia'', avalia o professor.
Para os que consideram que o ensino religioso tem a obrigação de repassar aos estudantes conceitos morais e éticos, Betiato afia a espada para dizer o contrário: ''Essa é uma responsabilidade de todo mundo, sendo também de outras disciplinas''.
Isolar tudo o que já se falou sobre Jesus Cristo e Maomé, por exemplo, é erguer um novo Muro de Berlim, o que esse momento da pós-modernidade não admite.
Ao escalar todos os degraus do comportamento humano, o fenômeno religioso, na avaliação do professor Betiato, não pode ser desconsiderado pelo ensino, presente em todas assituações cotidianas, como por exemplo a maneira que se dirige o carro no trânsito.

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