Atuais coleções têm linguagem simples
São Paulo - Ao contrário de antigos livros dirigidos a eruditos, os das atuais coleções são escritos numa linguagem simples. O de Teresa sacia a curiosidade do leitor médio sobre suas misteriosas febres, o estado de coma e a estranha ressurreição da santa, que ficou três anos paralítica antes de recuperar os movimentos e responder pelo milagre da transverberação de seu coração. Após sua morte, uma cicatriz nesse órgão deu sinais de que ele, efetivamente, havia sido trespassado, como Teresa revelou sobre os encontros com o anjo em sua biografia. Examinada pelo Santo Ofício, ela quase foi proibida, sendo posteriormente recomendada para edificar os fiéis.
Como todos os biógrafos de santos, o de Santa Rita, admite em ''Rita, a Santa do Impossível'', que uma de suas dificuldades foi saber onde começava a história e terminava o mito da semeadora de paz que enfrentou uma sociedade bélica e bárbara. O jornalista espanhol Juan Arias não evita discussões sobre a sexualidade de Rita, que a exerceu, segundo o autor, teve dois filhos e foi rechaçada pela família do marido morto, entrando para o convento com pouco mais de 30 anos.
Arias rejeita as biografias apologéticas e devocionais da santa. Não nega o mito, mas diz que a santidade pode manifestar-se em personalidades muito distintas, ''nas culturas e tradições mais diversas'', como uma ''qualidade do espírito''. Rita de Cássia, segundo ele, é um ''caso atípico de santidade, quase um paradoxo'', por ter sido venerada ainda em vida por fiéis que lhe pediam graças. Negando-se a perseguir os assassinos de seu marido e pregando a reconciliação, ela foi renegada por sua família. Não fundou nenhuma ordem nem fez dessa atitude uma postura missionária. Apenas defendeu a tolerância, numa época (século 15) que ignorava o significado dessa palavra.
Santa Rita, a advogada das causas impossíveis, ainda não faz parte da coleção ''Santos Populares do Brasil'', da editora Planeta, que já tem cinco deles biografados. Três são, de fato, muito populares no Brasil: Nossa Senhora Aparecida, Santa Luzia e Santo Expedito.
Alguns, como o milagroso Expedito, representam um desafio e tanto para qualquer biógrafo. Não há sepultura dele nem relíquias. Os primeiros registros sobre seus milagres aparecem apenas no século 18, na Alemanha (o santo, soldado romano que se converteu, recusou-se a renunciar à fé cristã e foi decapitado no ano 303).
Para terminar, não se sabe ao certo como a devoção ao santo chegou ao Brasil, ou melhor, a São Paulo, que dedicou a Expedito sua primeira igreja (em 1942). Mesmo assim, o livro mostra que Expedito é reconhecido até no candomblé como um orixá caçador, filho de Oxóssi e Ogum, que durante seis meses é homem e o resto do ano, mulher. A ousadia não pára por aí. A mesma coleção da Planeta sobre os santos populares do Brasil associa São Sebastião, padroeiro dos atletas e presidiários, à comunidade gay. (Agência Estado)





