Atraídas por incentivos inéditos, chegam multinacionais
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de dezembro de 2000
Carmem Murara De Curitiba 
Estado com vocação história para a agropecuária, o Paraná inicia, na segunda metade da última década do século 20, um ciclo de industrialização inédito. O movimento é conduzido por Jaime Lerner (PFL), que chega ao governo do Estado em 1995 e, em 98, se reelege por mais quatro anos.
O motor desse surto de crescimento é uma feroz guerra fiscal entre alguns Estados brasileiros para atrair multinacionais estrangeiras, que passaram a confiar no País, que conquistara a estabilidade monetária com o Plano Real. Nessa guerra, o Paraná foi pródigo em concessões: ofereceu benefícios tributários (como prazo de quatro anos para o início do pagamento de ICMS) e de infra-estrutura (doação de terrenos e implantação gratuita de sistemas de água e energia elétrica, por exemplo).
Com esses atrativos, o Estado foi o segundo do País que mais recebeu investimentos estrangeiros entre 1995 e 99. Só perdeu para São Paulo. Foram R$ 23 bilhões. Até 2003, o governo paranaense planeja investir outros R$ 13 bilhões em infra-estrutura para consolidar a industrialização. Além de incentivos fiscais, o Paraná tem atrativos naturais: cidades bem estruturadas, qualidade de vida, mão-de-obra mais barata e mobilização sindical reduzida em relação aos centros industriais consolidados.
No final da década, o Paraná se firma como o segundo pólo automotivo brasileiro, atrás de São Paulo. Três novas montadoras de veículos (Renault, Chrysler e Volkswagen/Audi) se somam a Volvo (caminhões e ônibus) e New Holland (tratores e colheitadeiras agrícolas), chegadas na década de 70. Quase duas dezenas de indústrias de outros setores (principalmente placas de madeira e embalagens) também são atraídas.
Em consequência desse ciclo industrial, o Produto Interno Bruto (PIB) paranaense cresce mais de 120% entre 1994 e 97, passando de R$ 21,3 bilhões para R$ 52,4 bilhões. As principais critícas a esse processo partem do setor agropecuário, que se sente abandonado pelo governo, e dos políticos de oposição, que consideram absurdos os benefícios dados.
O caso mais flagrante é o da Renault. Além dos benefícios citados acima, o governo paranaense entrou como sócio da empresa. Comprou, com dinheiro do contribuinte, 40% das ações da unidade da montadora francesa, numa soma de R$ 400 milhões. Além disso, o Estado assumiu o compromisso de responder na Justiça por eventuais desastres ambientais causados pela fábrica, instalada em uma área de mananciais na Região Metropolitana de Curitiba.


