DivulgaçãoO anúncio premiado, na versão com texto em inglês que foi mostrada em Cannes: ‘‘Volvo. O primeiro carro do mundo com air bags laterais’’Um par de seios maternais e um simpático nenê. Essa fórmula simples foi a saída que a agência Headds, de Curitiba, encontrou para ressaltar a segurança dos carros da Volvo. A receita acabou rendendo muito mais: a associação de idéias entre o sentimento de proteção maternal e o produto do cliente fez com que agência fosse premiada no mais importante evento da propaganda mundial, o ‘‘Festival Internacional do Filme Publicitário de Cannes’’, que acontece na França. Com a peça, um anúncio produzido para revistas (leia mais ao lado), a Headds levou um Leão de Bronze, correspondente ao terceiro lugar no festival, dentro da categoria de mídia impressa.
A premiação serviu como uma ventania capaz de inflar as velas de toda a publicidade paranaense, setor que, apesar de possuir grandes talentos e criatividade de sobra, enfrenta um problema crônico, o da clássica autofagia curitibana e paranaense. Segundo este pensamento canibal, o que vem de fora sempre é melhor e merece reverenciamentos exagerados, ao passo que a produção local recebe olhares de desconfiança e descrédito - um bairrismo às avessas que também se expande em outros setores como o da música e cultura em geral.
Além da conquista marcada pelo leão da Headds, outras agências da cidade chegaram às fases finais do Festival, a Exclam e a Master. Esta última, inclusive, teve um comercial eleito como um dos melhores de Cannes pelo canal de TV Francês M6 - que tradicionalmente cobre o evento (veja box na outra página).
Para a equipe da Headds, a importância da conquista não se resume à agência. ‘‘Por se tratar do mais conceituado festival publicitário do mundo, com uma avaliação criteriosa e a participação das melhores agências, o prêmio que ganhamos é importantíssimo para romper o preconceito segundo o qual o talento é uma exclusividade daquela região que vai dos Jardins, em São Paulo, até Ipanema, no Rio de Janeiro’’, diz o diretor de criação da agência, José Buffo. ‘‘O prêmio foi um sinal bem claro de que existe vida inteligente na publicidade fora do eixo Rio-São Paulo’’.
Segundo Buffo, o autofagismo que parece inerente a cultura do estado e da cidade é muito presente também na publicidade. ‘‘Lutamos muito para tentar fazer os empresários perceberem que do lado deles existem agências capacitadas para atendê-los’’, diz. O problema da evasão de contas publicitárias de empresas paranaenses para agências de São Paulo, principalmente, é um problema antigo e sentido por todo o mercado. ‘‘Os prêmios certamente vão servir para reverter essa desvalorização, contra a qual sempre lutamos’’, diz André Caldeira, diretor de atendimento da Master. ‘‘O mercado como um todo sai mais forte’’.
O movimento dos empresários locais em direção às agências do eixo Rio e São Paulo às vezes é movida por critérios não muito pragmáticos, opina o diretor de operações da Z. Publicidade, Fernando Carvalho. ‘‘Até por vaidade, os empresário vão buscar agências de fora, achando que terão algo mais. O que acontece é que lá, a empresa será apenas mais uma no quadro de clientes, pois para uma conta ser grande em São Paulo tem que investir acima de R$ 5 milhões, enquanto em Curitiba uma conta de R$ 1 milhão já é muito importante’’, diz. ‘‘As vezes o empresário não consegue enxergar que terá um nível de atendimento diferente por parte das grandes agências de nome nacional’’. A fuga de contas para o estado vizinho não é o único problema nesse confronto. ‘‘Muitos profissionais também são levados para lá. Isso é mais uma prova de que existe publicidade de qualidade aqui em Curitiba’’, completa Carvalho.
Um consenso entre os publicitários locais é que a publicidade paulista só leva vantagem mesmo nos orçamentos maiores. ‘‘Eles tem mais empresas e anunciantes e verbas maiores, o que resulta num mercado competitivo e em muitas agências boas e bons anúncios. Mas, guardadas as proporções, a publicidade paranaense não fica nada a dever’’, conclui José Buffo, da Headds. ‘‘Outra diferença crucial: os paulistas tem um sentimento bem diferente
do nosso autofagismo paranaense e curitibano. Valorizam o que é feito na terra deles’’.

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