Neste ano, a curitibana Ana Paula (nome fictício), 36, conseguiu a anulação do seu casamento junto a Arquidiocese de Curitiba, após seis anos de espera. "Foi um alívio para mim e minha família. Não foi fácil, é preciso que tenha motivos fortes para a Igreja conceder a anulação", conta ela, que em menos de um ano, viu o sonho de uma vida a dois ruir diante de mentiras e traição. O casório foi em novembro de 2001 e já, em 2003, ela deu entrada no pedido de anulação na igreja e no civil. Ambos correm em segredo de justiça.
"Acabou porque meu ex-marido é homossexual. Ele casou comigo já sabendo da sua opção sexual. Casou para manter as aparências, por isso, não quis até o último momento a anulação. Preferia o divórcio só para mostrar a sociedade que é macho", desabafa. "Quem olha não acredita que ele seja homossexual, ele disfarça muito bem. Por isso, nos chocou bastante. Até para minha família ele jogou em mim toda a culpa do fim do casamento, me acusava que eu não era boa esposa. Com a anulação consegui provar minha inocência. Hoje meu estado civil é solteira. Posso casar de novo na igreja e no cível", comemora ela.
Os pedidos de anulação na Igreja Católica e no Civil precisam ser julgados no Tribunal Eclesiástico e de Justiça, respectivamente. Não é possível fazer acordo entre as partes envolvidas. Em três anos, saiu a sentença no Civil. "Entre namoro e noivado foram dois anos e 11 meses juntos. O desejo de casar foi dele, ele que me pediu em casamento. Eu gostava muito dele, estava apaixonada, jamais suspeitava de nada. Achava que estava realizando o sonho da minha vida que era casar com o homem que amava", disse Ana Paula.
Segundo ela, o porteiro e a ex-síndica do prédio onde morava a alertaram sobre o comportamento suspeito do marido, que saía à noite com homossexuais. "Ele começou a me largar sozinha em casa à noite. Então resolvi contratar um detetive que me confirmou tudo. Instalei uma câmera no apartamento que registrou ele se beijando e se agarrando com o namorado na minha sala", lembra Ana Paula, que anexou fotografias do vídeo ao processo. "Não tenho nada contra homossexualismo. Só não acho certo enganar. Foi uma decepção, um trauma grande. Uma bela de uma sacanagem comigo", conclui.
Por outro motivo, em 1991, Suzyara Machado, 46, também deu entrada, no pedido de anulação do seu casamento, ocorrido um ano antes do nascimento do filho. "Casei porque tinha engravidado, era jovem, e minha família, muito católica, achava que era o certo. Mas nunca morei com o pai do meu filho, nunca tivemos uma vida em comum, de casados", conta ela que é assistente de relações públicas. "Logo depois, bateu o arrependimento em todo mundo. Minha mãe se informou e descobriu que havia a possibilidade da anulação através do Tribunal Eclesiástico", relata Suzyara.
O parecer favorável a Suzyara só foi concedido em 1996. Depois, em 1997, a anulação foi confirmada em segunda instância pelo Tribunal Eclesiástico de Porto Alegre. "Demorou muito, porque perdemos muitos prazos do processo. Precisava de testemunhas do lado do meu ex-marido e ele mesmo não comparecia, que não colaborou muito. Não porque ele não queria a anulação, mas porque não dava muita importância para isso. Para mim era muito importante, sou católica praticante e o meu casamento não existia de verdade, dentro dos princípios da Bíblia. Foi bom deixar o meu caminho livre e o dele também", acredita.
Para ela, o mais difícil do processo foi ter que reviver o "casamento que não aconteceu" e aguardar a morosidade do processo de anulação. "Eles pediram que eu escrevesse tudo o que tinha ocorrido, todos os detalhes, e foi muito ruim expor minha intimidade, naquele momento tão delicado. O mais importante era que eu colocasse a verdade. Não é fácil conseguir a anulação, é tudo tratado com muita seriedade. Por isso, é bom pensar bem direitinho antes de decidir se casar", opina Suzyara.
No Tribunal Eclesiástico da Arquidiocese de Curitiba cerca de 800 pessoas aguardam audiência para conseguir a Declaração da Nulidade do Casamento. O Tribunal, aliás, esclarece que não é possível conceder a anulação, mas sim a declaração de nulidade, já que a Igreja não permite o divórcio como príncipio da Bíblia Sagrada, "não se pode separar aquilo que Deus uniu". A declaração permite que a pessoa possa se casar novamente no religioso. Houve um aumento muito grande de pedidos de Nulidade Matrimonial, nos últimos tempos, o que leva a instituição a acreditar que as pessoas estão mais informadas sobre essa possibilidade.
Segundo o Tribunal Eclesiástico, o Arcebispado avalia o aumento como positivo "diante da possibilidade dos casais regularizarem a sua situação religiosa". A demora no processo se deve a estrutura do próprio Tribunal Eclesiástico de Curitiba que "deixa a desejar por falta de pessoas capacitadas para este ofício". São apenas 11 padres com formação em Direito Canônico que prestam esse serviço. Por isso, em Curitiba, é feita uma minuciosa triagem das causas, sendo admitidas somente aquelas que apresentam possibilidades de Declaração de Nulidade, até pelas custas e tempo exigido para tramitação do processo.

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