‘‘João Milanez foi sempre um abridor de portas nos ministérios e órgãos do governo’’. Foi uma das frases ditas pelo então presidente da Sociedade Rural do Paraná, José Carlos Tiburcio, durante a homenagem feita há quatro anos ao fundador da Folha. Tiburcio lembrou a participação determinante da Folha na criação de outro ‘‘patrimônio’’ da cidade, também ligado ao setor rural: o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Berço da pesquisa avançada no setor agropecuário, o Iapar, órgão do governo do Estado vinculado à Secretaria de Agricultura, foi criado em junho de 1972, quando a região sentia a necessidade de um centro de pesquisas que buscasse tecnologias aplicáveis à melhoria da agropecuária paranaense. Nesse início da década de 70, o Estado possuia uma infinidade de entidades promovendo pesquisas isoladas. A idéia inicial surgiu no IBC (Instituto Brasileiro do Café), que tinha planos de dotar Londrina de um órgão de pesquisa sobre café. Mas a proposta evoluiu e, no governo Parigot de Souza, Londrina foi eleita para sede do centro de pesquisas de alto nível.
A Folha encarregou-se de mostrar a importância agrícola da região para as autoridades que acabariam se convencendo de que o município seria endereço ideal para a entidade. O jornal, através de João Milanez, teve presença decisiva na criação do Instituto. Ele participou de toda a campanha que resultou no Iapar, ao lado da direção da Sociedade Rural. Milanez arregaçou as mangas: pediu a quatro ministros da época, Delfim Netto, Reis Veloso, Cirne Lima e Pratini de Morais, em um evento em Cubatão (SP), apoio à causa paranaense. Até ouvir de Delfim, ‘‘homem do dinheiro’’ da época, o que queria: Londrina iria sediar o Instituto Agronômico. De novo, integrou a comitiva que definiria o local para a construção do Instituto. No dia 20 de julho de 1970, quando seria assinado o convênio entre o governo do Estado e o IBC para a criação do Iapar, a Folha circulou diferente. No cabeçalho, recortes de cada notícia veiculada pelo jornal durante a ‘‘luta’’ pelo Iapar e apenas um texto envaidecido sob o título: ‘‘Afinal, valeu o esforço’’.
Poucos anos após o início de operações, o Iapar já mostrava a sua utilidade ao oferecer respostas técnicas aos produtores rurais. Quando o Iapar comemorou 20 anos, em 1992, a Folha foi homenageada. O presidente do Instituto, Gonçalo Signorelli de Farias, disse que o jornal ‘‘não só teve importância na instalação do órgão como também no seu crescimento e consolidação’’.
A ligação da Folha com o campo sempre foi forte, também quando o assunto era a preservação ambiental e a saúde dos trabalhadores rurais. Em 1984, o jornal recebeu um voto de congratulações, proposto pelo por Valdo José Cavalet, vice-presidente da Federação das Associações dos Engenheiros Agrônomos do Brasil, pelo ‘‘amplo espaço que o jornal dedicava ao tratamento da questão dos agrotóxicos no Paranᒒ.
Outra briga tão grande quanto bem-sucedida do jornal foi pela implantação da Universidade Estadual de Londrina. ‘‘A mais difícil e demorada’’, reconhece Milanez. Quando o jornal nasceu, em 1948, a educação do município, então com 14 anos, resumia-se a alguns grupos escolares e ginásios. Até o início dos anos 60, Londrina contava com seis grupos, quatro ginásios e a escola pioneira em nível de 3º grau: a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Ao longo da década de 60 e 70, outros cursos superiores foram sendo criados, mas sempre de maneira isolada. Para concentrar todos eles, em 1970, o governo do Estado criou a Universidade Estadual de Londrina (UEL), reconhecida oficialmente em 7 de outubro de 1971, tendo como núcleo os cursos de Medicina e Odontologia e reunindo ainda os de Filosofia, Direito e Ciências Contábeis.
A UEL foi uma conquista da comunidade que contou, desde os primeiros movimentos, com o apoio da Folha. A população londrinense entendia que a cidade necessitava de uma instituição, financiada pelo Estado, que aglutinasse os cursos superiores e abrisse oportunidade para que outros surgissem. Afinal, o município era o segundo do Paraná, com forte arrecadação de impostos, e pedia o retorno em forma de serviços dos recursos que destinava aos cofres estaduais. A Folha foi porta-voz da reivindicação, que ecoou na capital do Estado e acabou ouvida no início dos anos 70. Milanez tem na ponta da língua, até hoje, a manchete-ultimato ao governo do Estado: ‘‘Londrina não abre mão da sua universidade’’. D. Geraldo achou um pouco forte, ele lembra. ‘‘Respondi que não era forte, não. Era isso mesmo’’. O então governador Ney Braga se rendeu ao apelo da comunidade. Outra campanhas idênticas foram feitas depois na região. (R.M.)

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