Nenhum outro momento da História teve um desenvolvimento científico tão rápido. Nos últimos 40 anos, o Homem pisou na Lua e enviou espaçonaves a Vênus e Marte, armazenou o conhecimento num minúsculo chip de computador e já ameaça clonar pessoas. Passando pelas vacinas, pela alta tecnologia de medicamentos e alimentos, a trajetória humana no milênio e especialmente neste século foi tão produtiva que nem sequer as guerras, epidemias, a fome, as matanças, a violência urbana e as demais catástrofes puderam impedir uma explosão demográfica.
Em 1900, a população mundial era de 1,65 bilhão de pessoas; na madrugada de 12 de outubro passado, chegava oficialmente aos 6 bilhões, com o nascimento de Adnan Nevic numa maternidade de Sarajevo. E nos próximos 12 anos deve nascer o bebê de número 7 bilhões. Há 100 anos, a expectativa de vida dos mais ricos oscilava entre 40 e 50 anos; agora, chega a 80. Mesmo os mais pobres, que morriam entre 20 e 40 anos, chegam aos 60 anos, ainda que a expectativa de muitos africanos não ultrapasse os 40.
A ‘‘descoberta’’ de atitudes simples e ações de baixo custo também contribuíram para assegurar mais vida no planeta. Entre 1994 e 99 cresceu de 900 para 15 mil o número de hospitais que garantem às crianças atendidas receber leite materno nos seis primeiros meses, o que multiplica suas chances de sobrevivência. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) vê estas e outras iniciativas num quadro positivo de conscientização e mobilização sem precedentes. ‘‘As preocupações com a infância e seus direitos são atualmente maiores em programas de governo do que em qualquer outra época’’, relata a diretora-executiva Carol Bellamy, num relatório divulgado este ano.
Não só com a infância. Organizações não-governamentais espalham-se pelo mundo inteiro para defender direitos dos seres humanos de qualquer idade. As próprias empresas investem cada vez mais nos chamados programas de responsabilidade social, que vão além dos auxílios de caridade a populações carentes. Eis porque ganha força a tese do perdão à dívida externa dos países mais pobres. Juntos, os 41 mais endividados (33 deles africanos) deviam em 1996 a patética quantia de US$ 245 bilhões, o que zera seus orçamentos, segundo a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). A miséria gerada pela dívida custa muito mais em socorro emergencial do que custaria o investimento em saúde preventiva e educação pública. É a lógica de qualquer bom administrador, público ou privado. Assim, a Dinamarca decidiu puxar a fila, cancelando US$ 635 milhões de seus haveres junto a países pobres e a Alemanha dá sinal de adesão. Talvez esperem gastar menos em ajuda humanitária.
Estas também são marcas singulares do desenvolvimento humano. Mais do que as proposições filosóficas ou ideológicas puras, atitudes pragmáticas ajudam a consolidar um novo tipo de conhecimento, que já nem tem tempo de se concentrar. Na incontrolável circulação global de informações, as teses viram correntes quase que imediatamente, juntando pobres e ricos num grande debate político global.
Expressão definitiva do estágio do Homem neste final de milênio, a globalização permitiu também a inserção – gradativa mas inevitável – de povos antes sem voz na mesa de negociações do planeta. É um avanço notável, que abre perspectivas mas, por outro lado, apresenta desafios. Para o debate, a disputa, a competição em todas as esferas, é necessário um bom preparo, lembra José Carlos Libânio, do PNUD/ONU. Se há algumas décadas pregava-se a igualdade de oportunidades para todos, hoje a palavra de ordem é a igualdade de capacidades. ‘‘Porque sem elas não há como aproveitar as oportunidades da aldeia global.’’

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