Assim caminham os jornalistas da Folha
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de novembro de 1998
Paulo Briguet 
O jornal está em silêncio. 7 horas da manhã. Tudo quieto e escuro na Redação da Folha. O silêncio flutua sobre as ilhas de computadores, os telefones, o fax, as operadoras de telefoto, o arquivo, os papéis amassados, a sala de entrevistas, o rádio, os aparelhos de TV, as mesas, a impressora. Durante as próximas horas, como acontece há 50 anos, o lugar se transformará.
Há algum tempo, Jota Oliveira tem a fama de ser o primeiro jornalista a romper o silêncio da manhã na Folha. E é. O editor da Folha Rural o faz discretamente, como de costume. Acende as luzes, senta-se diante do computador. Aos 58 anos, ele está na casa desde 1966. Sempre gostou de acordar e trabalhar cedo; a manhã é a parte do dia em que ele produz melhor. Hábito de quem nasceu em fazenda e até hoje se identifica com a vida do campo. Há 23 anos, ele acordou de madrugada, abriu a janela e viu uma das cenas mais impressionantes da sua vida jornalística. Naquele dia, ao acordar cedo, presenciou a grande geada. O fenômeno arruinou a lavoura de café no Norte do Paraná sob um manto de gelo. Jota olhou para algumas valetas que estavam sendo cavadas na vizinhança. A umidade saía das valetas como farpas congeladas, que pareciam flores. A beleza veio antes; a tristeza das plantações veio em seguida. Era 18 de julho de 1975. Dia, mês e ano de cão para a cafeicultura paranaense. Jota noticiou.
Mário CésarLúcio Horta começa o dia: é uma crise na APAEMas hoje faz calor. Um calor intenso, que o barulhento ar condicionado tenta amenizar. O silêncio da Redação começa a ir embora - e parece que nunca mais vai voltar. Quando Jota Oliveira entrou na Folha, as matérias eram escritas na legendária máquina de escrever Lexicon 80 (com a qual ele fez 16 textos logo no primeiro dia). Desde 1993, as matérias são produzidas em computadores.
Bem ao lado está Alaíde de Souza, há 11 anos limpando o que sobrou do jornal do dia anterior. Anotações de garranchos, blocos espirais usados, mixórdia de edições passadas, enormes sacos plásticos estufados de papel - e Alaíde ainda diz que é fácil. No tempo das máquinas de escrever era pior, tinha mais papel, conta.
Por volta das 8h30, as pauteiras Adriana De Cunto (de Londrina) e Mônica Kaseker (de Curitiba) já acionaram seus respectivos arsenais: rádio, televisão, telefones (às vezes um em cada ouvido), jornais, press releases, bilhetes, advertências de leitores, recados dos colegas. Elas hoje não aparecem nas páginas da Folha, mas batalham atrás da informação. Como pauteiras, Adriana e Mônica indicam aos repórteres todos os fatos que podem virar notícia. Essas duas mulheres começam a pensar o jornal de amanhã.
Alaíde: há 11 anos limpando a Redação toda manhãHá dificuldades. Outro dia, pelo telefone, Adriana De Cunto convenceu um sujeito a não botar fogo no carro. A ânsia pela notícia é tanta que Adriana acaba levando trabalho para casa. A insistência em fazer do lar uma espécie de sucursal - buscando notícias por telefone - desagradou a filha Júlia, de 2 anos. A garotinha passou uns dias irritada com aquela hora extra da mãe. Agora, Adriana está maneirando. Tenho procurado trabalhar só quando estou no jornal.
O relógio da Redação aponta 9 horas. As pautas começam a ser distribuídas. Em Curitiba, o grande acontecimento do dia é o anúncio de cortes de verbas estaduais pelo governador Jaime Lerner. O repórter de política Leandro Donatti ficará o dia inteiro por conta do tema. O repórter Lúcio Horta, em Londrina, irá à escola da APAE, que está em crise. O motivo é o atraso de verbas. Ao todo, 240 crianças excepcionais ficarão sem aula.
O calor aumenta na rua; o barulho cresce na Redação. O repórter Lúcio Horta ajeita os óculos, consulta o relógio de visor cinza e chama o repórter-fotográfico Mário César. Eles entram no carro dirigido por Rodrigo Rafael. Na APAE de Londrina, o porteiro Idevanir Rodrigues, 23 anos, acolhe a equipe de reportagem com sorriso e simpatia. Lá dentro, os diretores da entidade não têm motivos para sorrir. A escola passa pela pior crise em 34 anos de existência. A direção não consegue completar a folha de pagamento dos 62 funcionários. A instituição não recebeu uma verba de R$ 7,6 mil, que é enviada pelo governo federal e repassada pela prefeitura de Londrina. Recursos atrasados somam R$ 29 mil.
Adriana: conselhos por telefone e sucursal em casaNos corredores da APAE, Lúcio Horta e o fotógrafo são recebidos com carinho pelo alunos, que gostam muito de visitas. São 240 meninos e meninas, a maioria de famílias pobres. Horta sabe que aquelas crianças vão ficar sem atendimento. Isso significa um retrocesso na educação da garotada, pois o ensino de excepcionais demanda continuidade. Sem falar na merenda, que para muitos alunos é a única refeição. Mário César faz fotos das crianças na sala de aula. À tarde, com o fechamento da escola, aquela sala estará vazia. A menina Samara de Melo, 9 anos, faz pose para a câmera. Não sabe o que é ajuste fiscal nem corte de verbas.
Em Curitiba, na mesma hora, o governador Jaime Lerner anuncia corte mensal de R$ 35 mil no Paraná. O repórter Leandro Donatti, no Palácio Iguaçu, anota as medidas do pacote estadual no seu bloquinho. Começava a nascer uma manchete de jornal.
O tempo, como sempre, é escasso para o jornalismo. Lúcio Horta liga para o motorista vir buscá-lo. Na calçada, à espera do carro, um aluno pergunta ao repórter da Folha: Vocês são do jornal? Quando é que vão trazer o Ratinho aqui? Logo em seguida, o carro chega. O motorista André Teixeira dirige sorridente. No dia 3 de novembro, nasceu Felipe, com 3,530 quilos e 53 centímetros. Um garotão. Depois da licença-paternidade, Teixeira volta ao jornal. Felipe nasceu à meia-noite e vinte. Esperou para não fazer aniversário no Dia de Finados, garante.César AugustoCotidianoRedação: transformação minuto a minuto na tarefa organizada de uma nova edição
O motorista que havia levado a equipe, Rodrigo Rafael, 25 anos, diz que já aprendeu bastante acompanhando coberturas jornalísticas. Uma grande experiência de vida, segundo ele, foi conhecer o acampamento dos sem-terra em Rio Bonito, junto com o editor-adjunto Nelson Capucho e o fotógrafo Milton Dória. Eu tinha uma visão muito negativa dos sem-terra, mas mudei depois de conhecer a organização deles, de ver as famílias, diz.
Capucho, na Folha desde 1976, estava longe do trabalho de repórter quando resolveu fazer a cobertura dos sem-terra, em setembro deste ano. Gostou de voltar a campo, até pela saudade que sentia de fazer textos informativos. No dia em que foi fazer a reportagem sobre os sem-terra, Capucho notou que a pauta prevista não daria certo. Resolveu então usar um ângulo diferente para descrever a vida do MST: ouviu e mostrou as crianças sem-terra. O repórter é o ponta-de-lança no jornal. Sem ele, que é a matéria-prima, nada caminha bem, diz Capucho.
Um dos pontas-de-lança, Lúcio Horta, volta à sede da Folha, na Rua Piauí, depois de fazer entrevistas na APAE - e a porta do jornal está quebrada. A mudança da Folha para novas instalações, mais amplas e modernas, já foi anunciada. A previsão é que o jornal esteja funcionando em novo local em 1999. O velho prédio da Piauí ficou pequeno. O aniversário de 50 anos é também o adeus à velha Redação. .


