As várias faces de um clube
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
Luiza Xavier<br>Equipe da Folha 
Tarde chuvosa e quente de uma quarta-feira. No amplo salão (mal) iluminado por lâmpadas amarelas e vermelhas, sem janelas, meia dúzia de casais ocupam as mesas colocadas em volta da pista de dança, conversando baixinho, na penumbra. Uma garçonete usando avental preto se reveza entre o bar e os poucos fregueses. Uma canção popular, daquelas em que o compositor revela seus dramas amorosos, completa o cenário de clube de subúrbio.
Estamos no Novo Operário, como informa a placa da fachada. O prédio histórico, localizado no número 653 da Praça João Cândido, no Alto São Francisco, próximo ao Largo da Ordem, abrigou inicialmente a Sociedade Beneficente Protetora dos Operários, fundada em 1883, pelo pedreiro Benedito Marques, no início da urbanização da capital. O objetivo era amparar os trabalhadores e suas famílias, em casos de doença ou falecimento. Com o passar dos anos, o lugar foi se tornando uma referência das lutas do operariado.
Em 1954, porém, quando Edgard Antunes da Silva assumiu a presidência da entidade, o local passou a ser reconhecido por outro motivo: os animados bailes que, por três décadas, movimentaram os carnavais da capital. O mais famoso era o Gala Gay, que atraía turistas, políticos e representantes da alta sociedade curitibana, conforme indicam registros da imprensa da época. Era uma verdadeiro luxo. Além do baile, havia os desfiles de fantasias que distribuíam prêmios em dinheiro às vencedoras. Tinha gente que se preparava o ano inteiro para participar do concurso, recorda Samantha Wolkan. Nas edições de 1983 e 1984, aos 18 anos, ela ficou em primeiro lugar no concurso. Gastei todo o dinheiro em jóias, perfumes, roupas e sapatos, diverte-se.
A antiga sociedade beneficente ganhou, então, um apelido, passando a ser chamada de Ópera-Rio. Com a morte de Tatu, como era conhecido o presidente, na década de 80, o clube considerado o mais democrático da cidade iniciou uma fase de decadência. Nos anos 90, pegando carona no ritmo do momento, tornou-se uma lambateria e superou um incêndio que destruiu parte das instalações. Quem lembra desse período é Edson Marques da Silva, que começou a trabalhar como porteiro do Operário em 1993. Antes isso aqui ficava lotado, mas passamos a sofrer com a concorrência, conta ele, que atualmente é uma espécie de faz-tudo do lugar, se desdobrando nas funções de iluminador, DJ, porteiro e segurança. Aqui é tranqüilo. Só uma vez apontaram uma faca pra mim. Era um cara que queria agredir a mulher e eu impedi, conta.
A atual direção do Operário investe em um público mais calmo para recuperar o prestígio do passado. No lugar dos boêmios e dos amantes da lambada, senhores e senhoras de cabelos grisalhos ocupam semanalmente o salão do clube, que promove os Bailes da Terceira Idade de terça a domingo, das 15 às 22 horas. Eu venho quase todo dia, afirma a aposentada Lourdes Talão, de 81 anos. Ela é uma ótima dançarina, não precisa de aulas, elogia Ary José de Andrade, de 66, que dá aulas de dança de salão no Operário para quem quer ir além do dois pra lá, dois pra cá. Sócio do clube há quatro décadas, ele conviveu com Tatu e lembra das várias fases por que passou o lugar. No estatuto da sociedade constava até ajuda para a compra de remédios, quando um associado ficava doente, ressalta.


