As ruas de Curitiba
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quinta-feira, 01 de fevereiro de 2007
Marcos Martins<br> Equipe da Folha 
A pensionista Lourdes Meira caminha tranquila pela Rua Marechal Deodoro, no Centro de Curitiba. Em meio às dezenas de lojas e pedestres, ela nem desconfiava que a rua onde estava foi uma das primeiras da capital paranaense, chamada antigamente de Rua do Comércio. ''São tantas ruas que saber qual foi a primeira é bem difícil'', analisa. A lista oficial enumera outros 11 pontos. Rua da Entrada (atualmente Emiliano Perneta), Rua das Flores, Rua da Assembléia (Dr. Muricy), Rua do Rosário, Rua Fechada (José Bonifácio), Rua do Fogo (São Francisco), Rua do Nogueira (Barão do Cerro Azul), Rua Direita (13 de Maio), Rua do Saldanha (Carlos Cavalcanti), Rua da Carioca (Riachuelo) e Estrada da Marinha (João Gualberto). ''Passo sempre pela Barão do Cerro Azul e não sabia que ela era tão antiga assim, nem que já teve outro nome'', continua a pensionista.
A origem dos nomes das ruas também é ignorada pela maioria das pessoas. A estudante Vanessa Cristina Radun, por exemplo, não faz idéia de quem foi o homenageado da rua em que mora, a Martim Afonso. ''É muito nome estranho. Às vezes a pessoa fez até alguma coisa importante para vida da gente e nem fazemos idéia dessa obra ou dela'', avalia.
E qual seria um ''nome estranho'' para ela? ''Acho Ébano Pereira muito curioso'', revela. Quando fica sabendo que ele foi um dos fundadores de Curitiba, Vanessa se surpreende. ''Pensei que era algum poeta, escritor. Nem imaginava que ele fundou a cidade'', frisa.
Outros nomes que são rotina na vida de muita gente também passam despercebidos. Próximo a uma das placas da rua José Loureiro está o vendedor Donizete Vacilio. Ele desconhece quem tenha sido o homem que dá nome ao local, mas acha que ''está bem dado''. ''O nome é bonito e deve ser alguém importante'', opina.
E se há uma categoria que conhece bem as ruas - e principalmente o nome delas, é a dos taxistas. Roberto Pereira da Silva tem ponto na rua Monsenhor Celso. Mas, quem terá sido o religioso? ''Nem imagino, mas é uma boa opção'', opina.
Entre os nomes que ele julga estranho estão Winston Churchill e Benjamim Lins. ''O primeiro eu acho difícil de falar, a língua enrola toda. E esse Benjamim, quem é? Será que é parente do Ivan Lins?'', brinca o taxista. Monsenhor Celso, que batiza a rua em que Roberto trabalha, era Celso Itiberê, irmão de um músico que também dá nome a uma rua: Brasílio Itiberê. Churchill foi primeiro ministro do Reino Unido, durante a época da Segunda Guerra Mundial.
E as idéias para nomes de novas ruas não faltam. ''Eu colocaria Mané Garrincha, que é um cara que ficou na história'', sugere Donizete, o vendedor. Já a manicure Elza Antunes, 28 anos, deixa a modéstia de lado para reivindicar uma só para ela. ''Eu colocaria meu nome, mesmo'', brinca.
Se fosse o responsável pelo nome de alguma região, o frentista Alberto dos Santos, 23, faria uma homenagem ao cantor Leandro, da dupla sertaneja Leandro e Leonardo, que morreu em 1998. ''Gostava bastante das músicas dos dois e ainda sou bastante fã do Leonardo. E o Leandro foi um cara que lutou bastante, que deixou uma história bonita, de bons exemplos. Seria bastante justo'', reflete.
Outra ocorrência bastante comum é homenagem a políticos famosos. Nas listas, referências aos senadores Alencar Guimarães e Salgado Filho, aos prefeitos Maurício Fruet e Omar Sabbag, deputados Alencar Furtado e Fernando Ferrari e presidentes Getúlio Vargas e Epitácio Pessoa. Mas, e no futuro, depois de tantos escândalos, mensalões e sanguessugas, será que a classe política vai enfrentar resistência em receber tais honrarias? ''Eu acho que muitos deles vão sim, afinal, cada dia aparece um podre novo deles, não vai sobrar nenhum'', prevê o taxista Roberto Pereira da Silva. E o nome dele é grande. Até parece de rua. ''Cai bem, né? Acho que vou colocá-lo à disposição, por que não?'', brinca.


