As outras cristaleiras
A maior cristaleira da sala de Ragnhild Borgomanero é a que leva a coleção de fósseis. São peixes, insetos e objetos peculiares também fossilizados - de pedaço de pele a pelo de mamute. Joel, da empresa de segurança que reformava o alarme da casa na semana em que a FOLHA conheceu o acervo, estava estupefato. "A primeira vez que vejo uma coisa tão absurda é aqui", define. Logo ao lado está cristaleira com a gemas. São turmalinas, opalas, esmeraldas. Uma rubelita, enorme, chama à atenção. "Mas nunca gastamos o que não tivemos", comenta Ragnhild. A sexta cristaleira, bem mais discreta, guarda itens da Idade da Pedra - de flechas de quartzo a um amuleto búlgaro de mandíbula de criança. "Todo mundo que quiser conhecer é só telefonar", sugere.
Em uma sala próxima fica a coleção musical e parte da biblioteca de Guido. Ragnhild mostra no Guia Quatro Rodas o endereço do Museu Guido Borgomanero, em Mata (RS), a 80 quilômetros de Santa Maria. "Na época, eles moíam madeira petrificada para usar na construção. Guido conseguiu mostrar aos políticos o quão importante era o tesouro que eles tinham ali."
A vinda para Curitiba foi fundamental para que Guido decidisse ficar no País. "Ele dizia: três vezes cheguei ao Brasil sem pedir. Não devo contrariar um pedido do bom Deus." O interesse por religiões chega a uma terceira sala, em que estão guardados itens ligados à cultura afro-brasileira. "Ele estudou macumba nos anos 1950, época que era impensável um branco entrar ali. Conseguiu, pois a filha de um pai-de-santo ajudou."
Nessa sala há diversos amuletos, cabeças de jíboros, fotos de pescarias na Amazônia e alguns animais empalhados. Uma caranguejeira, um jacaré, capturado pelo próprio Guido, e também, antes que eu esqueça, um bico de tucano e um pênis de macaco, utilizado anteriormente como símbolo de poder. A carcaça de onça pintada deve ter o mesmo destino da anaconda de sete metros que atravessava o teto; mal conservada, acabou se esvaindo.
No corredor seguinte, diplomas e medalhas de Guido - ganhou a Cândido Rondon por fotografar o Rio das Mortes, afluente do Araguaia. E o quadro de uma argelina. "Foi um grande amor de Guido", conta Ragnhild. Pergunto se não tem ciúmes. "Nunca fui ciumenta e aprendi uma coisa com Guido, que dizia: Não vou ficar preocupado se você me contar que transou com outra pessoa. Vou me preocupar o dia que você gozar intelectualmente com outro homem." (R.U.)





