As nascentes do Iguaçu
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terça-feira, 18 de dezembro de 2007
Fábio Galão<br> Equipe da Folha 
O Paraná dá o nome ao Estado, mas é provável que o rio mais emblemático da terra das araucárias seja o Iguaçu. Quando alguém busca imagens que traduzam o Paraná, imediatamente vem à memória o espetáculo das Cataratas, em Foz do Iguaçu. Cortando o Estado de Leste a Oeste, o Iguaçu tem suas nascentes localizadas na Região Metropolitana de Curitiba e sua bacia hidrográfica é fundamental no abastecimento de água de muitas cidades paranaenses.
De acordo com a Superintendência de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental (Suderhsa), as nascentes surgem a ocidente da Serra do Mar. Piraquara, a Capital das Águas, concentra a maior parte delas: de acordo com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Agricultura e Turismo, 1.116 nascentes do Iguaçu estão localizadas no município. ''Elas representam 50% de toda a água consumida na Região Metropolitana de Curitiba'', diz Gilmar Zachi Clavisso, secretário do Meio Ambiente de Piraquara.
Ele aponta que muitas das nascentes do Iguaçu estão dentro de áreas particulares. Nas propriedades de Heitor Slomp, na localidade do Recreio da Serra, há 22 nascentes. Slomp criou o Paraíso das Trutas, um espaço com criação de trutas, restaurante e trilhas para ecoturismo, na área cheia de remanescentes de mata nativa. ''Meu hobby é montar chácara, fazenda. Queria me isolar no meio do mato e fiz uma cabana, onde fiquei por 10 anos'', explica. Slomp diz que o trabalho (ele é proprietário de uma vinícola) o impede de ficar no Paraíso das Trutas por mais tempo, mas ele vai ao local ''sempre que dá''.
Ele salienta que as nascentes do Iguaçu, limpas e com água fria, são ideais para a criação de trutas. ''Se você colocar uma truta em água poluída, em 15 minutos ela morre. A truta só se cria em água muito limpa e fria. Truta é o termômetro da água'', afirma Slomp.
A exemplo do proprietário do Paraíso das Trutas, o escultor Celso Ramos se dedica à preservação de áreas de nascentes do Iguaçu em Piraquara. Ramos mora há 17 anos numa propriedade na Vila Suzi, próxima de nascentes. Há poucos anos, estabeleceu seu ateliê no local, onde ministra oficinas e cursos de arte, sempre relacionando os conteúdos à educação ambiental.
''Desde que cheguei a Curitiba, em 1980, me falavam desse local, ao pé da Serra do Mar. Foi uma região onde a civilização guarani se estabeleceu e que possui grande riqueza arqueológica'', explica o escultor. Em 2001, com apoio da Lei de Incentivo à Cultura de Curitiba, Ramos fez um documentário sobre a necessidade de preservação das áreas, baseado nos preceitos de São Francisco de Assis, o santo padroeiro do meio ambiente.
''Agora estou com um projeto aprovado no Ministério da Cultura, para fazer um trabalho de educação ambiental em nove municípios na região do início do rio Iguaçu. Quando se fala do rio, dá-se mais atenção à foz, que é mais 'famosa'. Estamos com dificuldades para captar recursos para esse projeto. É preciso resgatar o espírito de valorizar o habitat e a cultura'', afirma o escultor. Ele cita que algumas áreas de nascentes do Iguaçu são comprometidas pelo lançamento de esgoto e pelo desrespeito ao patrimônio arqueológico.


