As unhas pintadas de Neila Maria, de 30 anos, correm grande perigo no canteiro de obras. ‘‘Quando a gente lida com tiner então, não dura nem dez minutos’’, adverte. Apesar da rudeza do ofício, ela não dispensa o batom e o hidratante para as mãos antes de sair de casa. ‘‘Pra não ficarem ásperas’’, explica. Recentemente ela e a colega Eliane Balbino da Silva, de 31 anos, conseguiram um emprego em uma empreiteira como ajudantes de pedreiro. Ambas foram alunas da primeira turma do curso básico de construção civil promovido pela Prefeitura de Curitiba através da Fundação de Ação Social (FAS).
  O curso faz parte do Projeto João de Barro, onde os membros da comunidade carente são incentivados a construir suas próprias residências e aprendem competências para ingressar no mercado de trabalho. Diferente do que imaginavam os organizadores, das 17 primeiras vagas oferecidas, nove foram preenchidas por mulheres. Com o sucesso da iniciativa, foram formadas mais quatro turmas que se encarregarão de construir casas populares da Companhia de Habitação de Curitiba (Cohab) em 11 pontos da cidade. Eis que nessa segunda etapa outra surpresa, das 20 vagas da turma do conjunto Sambaqui, 19 pertencem ao dito ‘‘sexo frágil’’.
  Trata-se de mais um golpe na divisão de tarefas entre homens e mulheres, que nos tempos de hoje fica sem fronteiras muito definidas. Na obra do conjunto Sol Nascente, onde trabalham as amigas Eliane e Neila, o mestre de obras José do Nascimento tenta dar alguma distinção às atividades de acordo com o gênero. ‘‘Não tem como uma mulher carregar um saco de cimento nas costas, mas para o acabamento elas são bem mais caprichosas’’, garante.
  De acordo com o diretor do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Paraná (Sinduscon), Normando Antônio Baú, ainda é muito cedo para afirmar que o lugar das mulheres está garantido no canteiro de obras. Segundo ele, não há uma experiência nesse sentido, apenas uma expectativa de que a mão-de-obra feminina tenha essas qualidades.
  ‘‘A mulher é mais detalhista, mas não tem a força física de um homem’’, compara. Segundo ele, o que determinará a escolha na hora de disputar uma vaga, certamente não será o sexo do candidato, e sim a experiência comprovada. Nesse ponto, as mulheres ainda não teriam conquistado seu espaço. ‘‘Tem que usar essa mão-de-obra no lugar certo’’, afirma.
  Foi a busca de uma melhor qualificação profissional para entrar no mercado da construção civil que levou Eloá Alvez de Lima, de 45 anos, a procurar o curso da FAS. Ela conta que o marido, que também é pedreiro, já havia lhe passado uma noção prévia do ofício, mas faltava ainda a prática. ‘‘Os homens ganham mais vagas porque têm mais experiência’’, avalia. Para não ficar para trás, ela está se especializando como azulejista. Logo após concluir o curso de servente de pedreiro, ela iniciou outro de informática para trabalhar com os desenhos dos azulejos.
  Uma das vantagens mais importantes do curso, segundo as alunas, é a possibilidade de realizar obras em casa sem depender da ajuda dos homens. Aluna da nova edição do curso da FAS, Maria Ângela conta que já rejuntou sozinha 152 metros quadrados de lajotas em uma obra feita pelo sogro. ‘‘Ele achava que eu não ia agüentar o tranco’’, lembra. Para surpresa da família, ela não só deu conta do recado, como a experiência revelou uma nova aptidão. ‘‘Melhor mexer com massa que com a vassoura’’, brinca. Vaidade? ‘‘Só no final de semana’’.

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