Atender ao telefone às 4 horas da manhã e encontrar do outro lado da linha um leitor querendo saber o preço do dólar foi a situação mais curiosa que já vivi nos cinco anos como repórter correspondente da Folha em Umuarama. No jargão jornalístico, correspondente é o jornalista contratado para mandar notícias de uma região onde não existe sucursal.
O correspondente trabalha em casa, sozinho. Meu interlocutor pensava ter ligado para uma redação, acreditava que jornalistas trabalham a noite inteira e que teriam um exemplar ‘‘saindo do forno’’ com o preço do dólar daquele dia. Por trabalhar em casa, o correspondente pode ser encontrado a qualquer hora do dia ou da noite. Tem suas vantagens e desvantagens.
Como correspondente minha função é mandar diariamente para a redação da Folha, em Londrina, notícias e reportagens da minha região. Munida de um computador interligado por fax-modem com a redação, um fax e um telefone, tudo instalado em minha casa, cubro os fatos que acontecem na região de Umuarama. São 34 municípios num raio de 200 quilômetros de Cianorte a Guaíra (na fronteira com o Paraguai). Mauro Ramos LopesVânia: em casa, clínica geral
Minha região ainda é essencialmente agrícola, mas luta para se industrializar, busca maior representantividade política, tenta combater a miséria, a devastação ao meio ambiente, a criminalidade e outros problemas comuns de todas as sociedades organizadas. A Folha sempre apoiou as campanhas e lutas da região e em muitos casos teve participação decisiva, como na criação do Parque Nacional de Ilha Grande, ao denunciar em 93 a invasão da pecuária nas ilhas.
A reportagem da Folha chamou a atenção do promotor Robertson Fonseca de Azevedo, que mais tarde pediu transferência para a Comarca de Altônia, um dos municípios lindeiros ao Rio Paraná, para atacar o problema. Os pecuaristas foram expulsos e o arquipélago, uma das mais importantes reservas ecológicas do Paraná, virou parque nacional.
Não sofro nenhum tipo de cerceamento editorial. Posso fazer reportagens elogiosas sobre obras ou denunciar falcatruas de qualquer prefeito. O jornal exige apenas imparcialidade , precisão ao relatar os fatos e um bom texto. Quando entrei na Folha, travei contato com uma equipe inteira de jornalistas espalhados por todo o Paraná, mas todos empenhados em fazer sempre o melhor. Tive a oportunidade de trabalhar com os melhores jornalistas parananenses e aprendi muito com eles.
Como correspodente, meu contato com a redação é sempre por telefone. Até hoje, conheço apenas a voz de muitos dos meus colegas de trabalho. Mas a distância da redação e o isolamento não são problema. Meu trabalho e minha região sempre foram valorizados e reconhecidos. O jornal garante aos correspodentes as mesmas vantagens e recursos colocados à disposição da redação e das sucursais.
Quando a redação foi informatizada, eu também recebi equipamento e treinamento para aposentar a velha máquina de escrever e me integrar ao computador. Trabalhar em casa, sem expediente fixo, longe dos olhos do patrão, é fácil, mas exige responsabilidade. Preciso estar permanentemente atenta e bem informada para não levar ‘‘furos’’.
Como sou sozinha, preciso fazer ‘‘clínica geral’’, ou seja, cobrir todas as notícias nas áreas de economia, política, cultura e acontecimentos gerais de cidades. Não sobra tempo para enforcar o trabalho.
- VÂNIA MOREIRA é correspondente em Umuarama

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