Ary Rongel e a travessia do Drake
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domingo, 07 de dezembro de 2008
Sergio Ranalli<br> Reportagem Local 
Fim de tarde do dia 19 de novembro. Avisto pela primeira vez o ''Gigante Vermelho'', o Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel, no porto de Ushuaia, na Argentina. Gigante? Atracado ao lado de um navio cargueiro chinês parecia um nanico. Contudo não se pode subestimar a capacidade da embarcação: seus 75 metros de comprimento são capazes de deslocar 3,7 mil toneladas. Entre militares e cientistas, embarcam 94 pessoas, alojadas em camarotes com quatro ou seis lugares. Com dois grandes porões de carga, guindastes, laboratórios, ambulatório, consultório odontológico, academia, cozinha, refeitório e salas de estar, é uma microcidade que será a casa da tripulação por seis meses. Dois helicópteros Esquilo embarcados dão a mobilidade necessária ao transporte de cargas e ao apoio aos refúgios e acampamentos.
Embarcamos um dia depois do previsto, e o atraso só aumentava a ansiedade. Já dentro da embarcação tentava me encontrar em meio a um labirinto de escadas estreitas e portas estanques. Os camarotes surpreenderam, não eram tão pequenos, estava preparado para algo pior. A Praça D'armas, sala de estar e refeitório dos oficiais, é espaçosa e confortável. Uma televisão de 42 polegadas com DVD se encarrega de entreter a tripulação; os filmes se repetem, a sensação é que nunca alguém acompanha a trama por inteiro, contudo as risadas acontecem com o mesmo entusiasmo, nas mesmas cenas.
Em poucos minutos de navio uma dezena de palavras se incorporam ao vocabulário do marinheiro de primeira viagem: faina, safo, tijupá, ninho de pega, passadiço, chemaq, cheop etc... Entretanto, os silvos reproduzidos no fonograma nos fazem sentir analfabetos nessa ''língua'' de marinheiros, todos
parecem tão iguais quanto incompreensíveis.
As horas passam, o momento de suspender (deixar o porto) se aproxima, não há outra conversa pelos corredores apertados que não seja sobre previsões metereológicas para a passagem do temido Estreito de Drake, que faz a ligação entre o continente sul-americano e a Antártica. São quase mil quilômetros de mar aberto entre esses dois pedaços de terra. Ali ocorre a junção entre o Atlântico e o Pacífico.
Pelo estreito passam as frentes frias gestadas na Antártica, uma em seguida da outra. As temperaturas são baixíssimas, os ventos ultrapassam 200 quilômetros por hora e as ondas podem chegar a vinte metros de altura. Enfrentar um mar nessas condições pode levar a cabo um gigantesco navio petroleiro. Assusta pensar o que pode acontecer com a nossa embarcação de médio porte.
Para evitar riscos à tripulação o comandante da embarcação brasileira, o Capitão de Mar e Guerra Arlindo Moreira Serrado, aguarda pequenas janelas metereológicas para iniciar a travessia. ''O risco de navegar na Antártica é grande, a temperatura da água é fatal, o tempo de sobrevivência é de 90 segundos. A distância das terras próximas é enorme. Aqui a segurança tem que ter prioridade acima de tudo'', afirma Serrado, homem forjado para guerra que há dois anos trava batalhas diárias no campo das ciências. Já comandou até um Navio Patrulha da Marinha Brasileira pelas traiçoeiras águas do Rio Amazonas.
No passadiço, sala de comando e observação do navio, o rádio recebe previsões da Base Chilena Presidente Eduardo Frei. As informações alertam: ondas de até seis metros e rajadas de vento de 100 quilômetros por hora nos esperam. Com o mar nessas condições a inclinação da embarcação pode ultrapassar 40 graus. Teoricamente, 45 graus é o limite de inclinação do navio.
Andando pelo convés, me preparando para a aventura, tenho meus pensamentos interrompidos pelo alerta ecoado nos fonogramas. ''Tripulação, preparar embarcação para o mau tempo''. Dezenas de praças se encarregam de mudar as aeronaves de posição, reforçar a amarração de tudo que está no convés e convoo. O médico embarcado transita pelos corredores com bolsos repletos de remédios contra enjôo. Não convém facilitar, quase todos tomam. Mas alerta: ''Se a embarcação balançar demais não há remédio que dê jeito, mantenha o estômago cheio, fique deitado''.
Dezessete horas do dia 22, todos os oficiais com uniforme de gala. Numa das asas do passadiço o comandante dá as coordenadas para a mesa de operações. O navio começa a se distanciar do cais. Ushuaia vai ficando distante e o sol, raro durante toda viagem, resolve nos brindar na passagem pelo Canal de Beagle. Um oficial alerta os jornalistas embarcados: ''Quando for 23 horas, iniciaremos a travessia do Drake, amarrem seus equipamentos e bagagens. Vocês não conseguirão ficar em pé''.
O Ary Rongel atinge uma velocidade de 12 nós, aproximadamente 18 quilômetros por hora. São estimadas 44 horas de travessia pelo estreito. O temor não era exclusividade dos principiantes - praças e oficiais não escondiam a preocupação e a ansiedade. Alguns com mais de 3 mil horas de submarino, centenas de dias de mar em navios de guerra. Quando o relógio marcou 22h30 todos subiram ao passadiço: como perder o momento da entrada no Drake? Algumas horas se passaram, as ondas gigantes anunciadas não passaram de um metro e meio, a inclinação do navio chegou no máximo a 20 graus. Foi o Drake mais tranquilo da atual tripulação e a maioria comemorou. Devo confessar que um pouco de aventura não faria mal.


